Zack Snyder voltou a conversar com Josh Horowitz no podcast Happy Sad Confused, diretamente do Festival Internacional de Cinema de Toronto, poucas horas depois da estreia mundial de The Last Photograph. Em uma das entrevistas mais abrangentes do diretor nos últimos tempos, Snyder falou sobre o novo filme, a decisão de produzi-lo de forma independente, sua relação com as críticas, projetos que continuam em desenvolvimento e sua visão sobre o futuro da indústria cinematográfica.
Um filme de mais de 20 anos que finalmente saiu do papel
The Last Photograph é uma história que acompanha Snyder há mais de duas décadas. O projeto chegou a ser desenvolvido dentro da Warner Bros. com um orçamento estimado em cerca de US$ 50 milhões, mas nunca encontrou o momento certo para ser realizado.
Segundo o diretor, a ideia era originalmente fazer o filme entre projetos maiores. O problema era justamente sua posição intermediária: não era uma produção de grande escala, mas também não era um filme de baixo orçamento tradicional.
A oportunidade apareceu quando um de seus projetos foi colocado em espera. Snyder percebeu que tinha uma pequena janela em sua agenda e decidiu finalmente fazer o filme.
“Então juntamos uma pequena quantia de dinheiro e fomos filmar”, explicou.
A produção acabou sendo realizada de maneira independente e, segundo Snyder, a decisão aconteceu quase por impulso. Ele descreveu a experiência como espontânea e divertida, especialmente por poder trabalhar novamente com amigos.
“Se eu tiver uma câmera e um ator, posso fazer um filme”
Uma das características mais curiosas de The Last Photograph é o envolvimento direto de Snyder na fotografia.
O diretor não apenas comandou a produção como também operou a câmera durante todo o filme. Ele explicou que assumir essa função fez com que o processo se tornasse muito mais íntimo.
“Eu gosto muito mais assim”, afirmou Snyder durante a conversa, destacando que a experiência foi menos tediosa e permitiu que ele se sentisse ainda mais responsável por cada cena.
Mesmo sendo descrito como um filme pequeno dentro dos padrões de Snyder, The Last Photograph não é exatamente uma produção minimalista. O longa possui sequências de ação, helicópteros e uma escala considerável para um projeto independente.
Para Snyder, entretanto, o verdadeiro experimento era outro: descobrir se ele ainda conseguia fazer cinema reduzindo tudo ao essencial.
A ideia era simples: se tivesse uma câmera e um ator, seria possível fazer um filme.
Essa filosofia também remete a uma experiência anterior do diretor. Snyder contou que, em 2017, realizou um pequeno filme usando um iPhone como parte de uma proposta ligada ao ensino de cinema. Ele comparou esse tipo de exercício a um caderno de esboços, uma forma de aprender a linguagem cinematográfica na prática.
A influência de Apocalypse Now e a alma perdida do protagonista
Na entrevista, Snyder explicou que a história de The Last Photograph permaneceu essencialmente a mesma ao longo dos anos.
O filme acompanha dois homens em uma jornada. Um deles é um fotógrafo descrito como uma alma perdida, movido por uma busca que envolve redenção e vingança após uma tragédia que atinge sua família.
A narrativa possui forte influência de Coração das Trevas e Apocalypse Now, especialmente pela ideia de uma jornada cada vez mais profunda em território desconhecido.
Snyder também relacionou o protagonista à própria fotografia. Segundo ele, trata-se de alguém que, de certa maneira, foi “devorado pelas imagens”, algo que se conecta diretamente à natureza do personagem e ao próprio conceito visual do filme.
Snyder responde às críticas e fala sobre o lado “kitsch” de seus filmes
Como era de se esperar, a conversa também passou pela recepção crítica de The Last Photograph. Poucas horas após a estreia, Snyder já havia começado a acompanhar algumas das reações ao filme. O diretor afirmou que está acostumado ao discurso que acompanha seu trabalho e que, depois de tantos anos, tornou-se parcialmente imune a ele.
Em determinado momento, ele contou ter encontrado uma crítica extremamente agressiva sobre o filme e reagiu com humor.
Para Snyder, o mais interessante é quando alguém realmente sente alguma coisa diante de uma obra. Ele prefere uma reação intensa a uma resposta completamente indiferente.
O diretor também explicou que possui uma relação consciente com o chamado kitsch* e com o camp*, elementos que, segundo ele, fazem parte de sua linguagem cinematográfica.
Snyder afirmou que essa dimensão é muito mais sofisticada e autoconsciente do que simplesmente fazer algo de maneira involuntariamente exagerada.
Ele chegou a relembrar uma crítica antiga sobre sua representação da violência e brincou com a maneira como algumas pessoas tentam entrar em sua cabeça para explicar suas escolhas.
*Kitsch e Camp são duas sensibilidades estéticas baseadas no exagero, mas diferem essencialmente na intenção e no grau de ironia.
A personagem feminina e a memória de um relacionamento
Outro momento interessante aconteceu quando a conversa abordou a presença feminina em The Last Photograph. Snyder explicou que o filme possui dois protagonistas masculinos e que não pretende se desculpar por essa escolha. Ao mesmo tempo, existe uma personagem feminina fundamental para toda a narrativa.
Ela é a mulher que o protagonista amou durante a vida e cuja presença continua assombrando sua memória. Para Snyder, a questão não é simplesmente quanto tempo essa personagem aparece na tela, mas o papel que ela exerce dentro da história.
O diretor também utilizou a situação para falar sobre a maneira como lembramos pessoas que fizeram parte de nossas vidas. Segundo ele, muitas vezes não nos lembramos de alguém como uma pessoa completa, mas através das partes que nos afetaram, sejam elas positivas ou negativas.
Essa memória pode acabar criando uma versão idealizada da pessoa.
Via: Happy Sad Confused
Portal Zack Snyder • BR: De fã para fã
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