Durante uma nova entrevista à Variety, Zack Snyder voltou a falar sobre sua passagem pela DC e revelou um episódio que, segundo ele, aconteceu depois de toda a turbulência envolvendo Liga da Justiça. O diretor afirmou que um antigo executivo da Warner Bros. reconheceu que Snyder estava certo sobre a visão que havia defendido para o universo da DC.
A declaração ganha peso porque Snyder não fala apenas sobre a produção de seus filmes, mas também sobre a disputa criativa que existia dentro do estúdio em relação aos rumos do universo compartilhado.
“Você estava certo sobre tudo”.
Ao relembrar o período em que deixou Liga da Justiça, Snyder explicou que enfrentava simultaneamente o momento mais difícil de sua vida pessoal e uma enorme pressão envolvendo o filme.
Segundo o diretor, depois de toda a situação, ele teve uma conversa com um executivo da Warner Bros. que já não trabalha mais no estúdio. Snyder decidiu não revelar sua identidade, mas contou o que ouviu.
“Ele me disse: ‘Sabe, Zack, preciso te dizer uma coisa: você estava certo sobre tudo’.”
Snyder contou que respondeu apenas:
“Isso é muito gentil da sua parte.”
Então, o executivo teria completado:
“Nós estávamos lutando contra você e, no fim, você estava certo.”
A afirmação estava diretamente relacionada à sua visão para o Universo DC e à maneira como ele pretendia construir os filmes.
A disputa pela visão do Universo DC
Questionado sobre o que exatamente o executivo queria dizer, Snyder foi direto. Segundo ele, a disputa envolvia “toda a visão para o universo da DC”, além da maneira como ele conduzia seus filmes.
“Toda a visão para o universo da DC, a maneira como eu fazia filmes e tudo mais.”
Snyder explicou que, na época, existia uma tentativa de controlar sua abordagem. O diretor, entretanto, fez questão de deixar claro que estava falando do antigo regime da Warner Bros., que já não esta no comando.
“Eles fizeram uma tentativa de controlar aquilo. E estou falando do regime que estava lá e que não está mais.”
Na visão de Snyder, a Warner possuía uma propriedade intelectual gigantesca e tinha razões comerciais para querer protegê-la. Entretanto, ele acredita que a situação acabou fazendo com que o estúdio tentasse interferir diretamente em sua visão criativa.
“Eles tinham uma propriedade intelectual gigantesca, que vale uma fortuna, e consigo entender querer protegê-la da melhor maneira possível, já que todos os empregos deles dependiam de aquilo funcionar.”
A saída de Snyder e a chegada de Joss Whedon
O diretor também voltou a falar sobre o momento em que Joss Whedon assumiu Liga da Justiça. Snyder contou que, enquanto enfrentava o luto pela morte de sua filha Autumn, recebeu informações de que o filme estava passando por algumas refilmagens. Naquele momento, ele não tinha condições de acompanhar tudo de perto.
Posteriormente, Deborah Snyder assistiu à versão de Whedon e voltou dizendo ao marido que ele não deveria assistir ao filme. Snyder afirma que só depois descobriu a dimensão das alterações:
“E então descobri que eles haviam feito 60 páginas de reescritas.”
O diretor continua dizendo que nunca assistiu à versão de Liga da Justiça lançada originalmente nos cinemas.
“Eu nunca vi o filme, então não sei.”
Para Snyder, aquele período representou um dos momentos mais difíceis de sua carreira. Além de lidar com a perda da filha, ele viu chegar aos cinemas uma versão de Liga da Justiça que, segundo suas próprias palavras, não tinha sido feita por ele.
“Não apenas perdi minha filha, como também lançaram essa versão do filme com a qual eu não tive nada a ver, e meu nome está em um filme que eu não fiz.”
A liberdade de finalmente fazer sua versão
Anos depois, a chegada de Liga da Justiça de Zack Snyder representou algo muito maior para o diretor do que simplesmente lançar uma versão alternativa de um filme.
Snyder descreveu a oportunidade de terminar o projeto e finalmente apresentá-lo de acordo com sua visão como uma verdadeira catarse (liberdade e alívio).
“A catarse de poder terminar e fazer do meu jeito foi incrível.”
O diretor também afirmou que continua encontrando pessoas que fazem questão de agradecer pela existência do filme.
“Não consigo andar pela rua sem que as pessoas venham até mim e digam: ‘Graças a Deus por esse filme’.”
E James Gunn?
Durante a entrevista, Snyder também foi questionado sobre o atual Universo DC comandado por James Gunn e Peter Safran. A nova estrutura da DC Studios assumiu o controle da franquia depois do encerramento do antigo DCEU e passou a desenvolver uma nova continuidade.
Snyder revelou que ainda não assistiu aos novos filmes do universo, incluindo Superman e Supergirl.
“Não assisti aos filmes. É um pouco pessoal demais para mim. Muito cedo.”
Apesar disso, Snyder fez questão de separar sua relação pessoal com o antigo universo de sua opinião sobre Gunn.
A declaração mostra que Snyder não direcionou críticas pessoais ao atual responsável pela DC Studios. Pelo contrário, ele reconheceu que Gunn possui sua própria visão para os personagens.
O diretor revelou que Gunn chegou a consultá-lo sobre o uniforme do Superman, especificamente sobre a tradicional cueca usada por cima do traje.
“Ele me fez uma pergunta sobre a cueca. Sabe, eu nem consigo lembrar agora, mas acho que era sobre a cueca”, contou Snyder.
A partir disso, o cineasta aproveitou para fazer uma reflexão sobre a origem e o significado do elemento visual. Segundo Snyder, a cueca por cima do uniforme remonta aos homens fortes da era vitoriana, que usavam malhas da cor da pele e colocavam a roupa íntima por cima por causa do forte pudor daquela sociedade em relação à exposição do corpo.
“Watchmen é uma desconstrução dos super-heróis: neuroses, impotência sexual relacionada aos trajes, fetichismo, tudo isso. Você não consegue desfazer isso. Eu penso em tudo dessa maneira”, explicou.
Para Snyder, esse aspecto do uniforme representa uma tradição que pertence a outra época.
“Para mim, isso é tão ultrapassado. Nós não nos sentimos mais assim. Vivemos em uma época em que estamos bem sem colocar a cueca por cima”, afirmou.
No entanto, o diretor também levantou uma possibilidade diferente sobre o significado da peça no traje do Superman.
“Talvez não estejamos bem! Talvez a mensagem seja colocar a cueca de volta no Superman porque ainda não superamos nosso pudor vitoriano. Mas eu achei que tínhamos superado!”, concluiu Snyder.
Snyder e a nova geração de filmes de super-heróis
A conversa também avançou para uma questão mais ampla: o futuro dos filmes de super-heróis. Snyder acredita que Watchmen e O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, representam dois extremos importantes da evolução dos quadrinhos de super-heróis.
Segundo ele, Watchmen surgiu em um momento em que o público dos quadrinhos estava cansado do gênero. Agora, Snyder acredita que o cinema de super-heróis atravessa um momento semelhante.
“‘Watchmen’ surgiu no início da era dos filmes de super-heróis, então seria extremamente apropriado que ‘O Cavaleiros das Trevas’ viesse agora.”
O diretor acredita que o público atual também demonstra sinais de cansaço em relação ao gênero.
“‘O Cavaleiros das Trevas’ foi escrito para um público de quadrinhos que estava muito cansado dos quadrinhos, da mesma maneira que ‘Watchmen’ também estava.”
Por isso, Snyder considera que uma adaptação de O Cavaleiro das Trevas poderia conversar diretamente com o momento atual de Hollywood.
“Ter esse filme escrito agora para pessoas que estão cansadas de filmes de quadrinhos seria uma boa hora para fazê-lo.”
A visão de divindade para seus super-heroís
A discussão sobre o gênero também ajuda a entender uma diferença fundamental entre a abordagem de Snyder e outras interpretações dos super-heróis.
O cineasta sempre demonstrou interesse em tratar os personagens como figuras mitológicas, explorando questões relacionadas a identidade, religião, humanidade e poder, em vez de simplesmente construir aventuras episódicas.
Essa característica aparece especialmente em sua interpretação do Superman. Ao falar sobre sua influência da Ciência Cristã e de Joseph Campbell, Snyder explicou que enxerga o personagem como uma figura divina, mas também como alguém que enfrenta problemas humanos.
“Sim, ele é semelhante a um deus, mas ainda enfrenta exatamente os mesmos problemas que enfrentamos.”
Segundo Snyder, essa combinação é fundamental para sua visão do personagem:
“Eu acredito que todos nós somos Supermans e que todos somos deuses na Terra.”
O futuro que Snyder ainda gostaria de fazer
Mesmo depois de deixar o comando do antigo universo cinematográfico da DC, Snyder continua mencionando projetos relacionados aos quadrinhos que gostaria de realizar. O principal deles continua sendo O Cavaleiro das Trevas. Para o diretor, adaptar a obra de Frank Miller seria uma maneira de completar um ciclo iniciado por Watchmen.
“Se eu pudesse fazer ‘Watchmen’ e ‘O Cavaleiros das Trevas’, esses dois livros lado a lado, para mim, representam o ciclo completo da mídia dos quadrinhos de super-heróis.”
Snyder ainda resumiu por que acredita que o momento atual seria particularmente adequado para uma adaptação:
“Você não pode fazer mais do que esses dois livros.”
No fim, a entrevista apresenta um Snyder que reconhece a existência de uma nova era na DC e ao mesmo tempo, reafirma que nunca abandonou sua convicção sobre o caminho que tentou construir para o universo.
E talvez a declaração mais significativa seja justamente aquela feita pelo antigo executivo da Warner, anos depois de Snyder ter deixado a franquia: “Você estava certo sobre tudo.”
Via: Variety
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