A transformação de Liga da Justiça: como Snyder, Whedon e a Warner chegaram ao ponto de ruptura na época
Para compreender por que Liga da Justiça chegou aos cinemas em 2017 tão diferente daquilo que Zack Snyder havia concebido, é preciso voltar alguns anos antes de sua saída da produção. A transformação do filme não começou quando o diretor deixou o projeto. Ela foi construída gradualmente, a partir da relação cada vez mais complicada entre Snyder e a Warner Bros., das reações a O Homem de Aço e Batman vs. Superman: A Origem da Justiça e das mudanças que o estúdio passou a exigir para o futuro daquele universo.
Exigências do Estúdio para MoS e BvS
A Warner já havia interferido diretamente nos filmes anteriores de Snyder, e essa relação entre diretor e estúdio não começou em Liga da Justiça. Em O Homem de Aço, embora Snyder tivesse liberdade para estabelecer sua interpretação do Superman, diversas decisões importantes foram discutidas e moldadas em conjunto com o estúdio, desde a própria concepção de um Superman mais contemporâneo e distante da representação tradicional do personagem até questões envolvendo sua trajetória e suas escolhas ao longo da história. A exigência de um Superman mais contemporâneo, sem cueca vermelha e com uma música-tema diferente foram do estúdio, e apesar do Snyder tentar encaixar a cueca em mais de 1500 modelos de uniforme, concluiu que não combinava com a proposta moderna exigida do Homem de Aço.
A recepção do filme, especialmente às decisões mais controversas, passou a influenciar a maneira como a Warner enxergava os projetos seguintes. Em Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, essa interferência se tornou ainda mais evidente durante a montagem. O filme originalmente possuía uma narrativa mais extensa e recebeu cortes significativos para chegar à versão exibida nos cinemas, enquanto a posterior Ultimate Edition recuperou cerca de 30 minutos de material. Entre as sequências restauradas estavam cenas que acrescentavam contexto às investigações de Lois Lane, desenvolviam melhor a trama envolvendo Clark Kent e ajudavam a esclarecer acontecimentos que, na versão cinematográfica, pareciam desconectados.
Exigência do Estúdio para Liga da Justiça
Assim, parte das críticas ao ritmo e à complexidade do filme estava relacionada justamente a uma versão que havia sido reduzida durante o processo de montagem. Ainda assim, a Warner não demonstrou interesse em assumir publicamente sua parcela de responsabilidade pelas decisões tomadas nesses filmes. Em vez disso, diante da reação negativa de parte da crítica e do público, o estúdio passou a pressionar por mudanças na abordagem de Liga da Justiça, especialmente em relação ao tom.
Uma das principais mudanças desejadas era a inclusão de mais humor. Snyder e o roteirista Chris Terrio, responsáveis pelo desenvolvimento do filme, fizeram alterações para atender às solicitações do estúdio, embora Snyder posteriormente reconhecesse que aquele tipo de humor não era exatamente o ponto forte de sua parceria com Terrio.
Foi nesse contexto que Joss Whedon entrou no projeto.
A decisão de Geoff Johns
A chegada de Whedon, contudo, não significava inicialmente que Snyder seria substituído. A participação do diretor de Os Vingadores começou de maneira muito mais limitada: Geoff Johns, então chefe criativo da DC Entertainment e um dos executivos responsáveis por supervisionar a produção, aproximou Whedon do projeto para colaborar nas reescritas.
Snyder chegou a enxergar a ideia com certa naturalidade. Whedon era conhecido por sua experiência com diálogos e humor, justamente elementos que o estúdio queria reforçar. A expectativa era que ele pudesse contribuir com algumas cenas, enquanto Snyder continuaria conduzindo o filme.
“Pensei que talvez ele pudesse escrever algumas cenas legais. Achei que seria divertido.”
A relação entre Snyder e Whedon, portanto, não começou como uma disputa direta entre dois diretores pelo controle de Liga da Justiça. O problema estava no contexto em que aquela colaboração surgiu: o estúdio já estava pressionando por uma mudança de abordagem, e Whedon foi incorporado ao processo justamente nesse momento de transição criativa.
E a pressão aumentaria.
Em janeiro de 2017, Kevin Tsujihara, então chefe da Warner Bros., assistiu a uma versão preliminar de Liga da Justiça e demonstrou preocupação com a duração do filme. Segundo Snyder, Tsujihara queria que o longa tivesse aproximadamente duas horas.
Para o diretor, a exigência era particularmente problemática diante da quantidade de personagens e informações que precisavam ser apresentados.
“Como eu vou apresentar seis personagens e um alienígena com potencial para dominar o mundo em duas horas?”
Snyder reconhecia que era possível construir uma história dentro desse limite, mas a exigência reforçava uma preocupação que vinha crescendo: a Warner queria que Liga da Justiça se adequasse a uma visão diferente daquela que ele vinha desenvolvendo.
O mau pressentimento
Em entrevista posterior ao The New York Times, Snyder afirmou que a contratação de Whedon para trabalhar no roteiro lhe causou um mau pressentimento. Ele passou a interpretar aquela decisão como um possível sinal de que o estúdio estava perdendo a confiança em sua abordagem, especialmente depois da recepção de Batman vs. Superman.
Ainda assim, Snyder não tratava Whedon como um profissional sem talento. Pelo contrário. Ele reconhecia sua capacidade como roteirista, mas não via razão para uma mudança tão significativa no projeto.
Quando a Warner explicou que pretendia tornar o filme mais divertido e intensificar o humor, Snyder respondeu que poderia trabalhar em determinadas cenas caso houvesse boas ideias. O problema, para ele, era a sensação de que o estúdio estava gradualmente preparando uma mudança maior.
“Ele é um roteirista talentoso, sem dúvida. Mas eu realmente não via sentido nisso.”
Foi então que a situação pessoal de Snyder mudou completamente.
A Saída de Snyder
Em março de 2017, sua filha Autumn morreu. Diante da tragédia, o diretor decidiu se afastar da produção para permanecer com sua família. A decisão aconteceu em um momento em que Snyder e sua esposa, Deborah Snyder, já enfrentavam um relacionamento desgastado com a Warner.
O diretor posteriormente explicou que continuar naquele contexto seria extremamente difícil. A família estava devastada pela perda, enquanto as discussões com o estúdio continuavam acontecendo.
“Toda a família, estamos tão devastados [com a perda de Autumn] que ter essas conversas no meio disso tudo se tornou… Eu fiquei tipo, ‘Sério?’”
Snyder também afirmou que, naquele momento, continuar poderia resultar em dois extremos: uma batalha ainda mais agressiva com o estúdio ou a simples aceitação das imposições da Warner.
“Acho que fizemos a coisa certa, porque acho que ou teríamos sido extremamente beligerantes ou simplesmente teríamos nos conformado.”
Aqui, Zack Snyder deixa claro que a pressão exercida fora das câmeras estava próxima a ser “beligerantes”, ou seja, poderiam resultar ativamente em uma espécie de guerra criativa. A saída de Snyder foi, portanto, o momento em que uma mudança que já vinha sendo construída ganhou outra dimensão.
Whedon, que havia entrado originalmente para colaborar nas reescritas, passou a ser responsável pela conclusão do filme. Sua função deixou de ser a de um roteirista adicional e passou a envolver novas filmagens e a direção das cenas que seriam produzidas após a saída de Snyder.
É justamente nesse ponto que a versão de 2017 se distancia profundamente do projeto original.
Liga da Justiça de 2017
Whedon não recebeu apenas a tarefa de terminar algumas cenas que Snyder não havia conseguido concluir. Foram realizadas novas filmagens, diálogos foram modificados, cenas foram acrescentadas ou alteradas e uma nova montagem foi construída. Elementos desenvolvidos por Snyder foram retirados, enquanto outros foram reorganizados, substituídos ou completamente reorientados.
O resultado foi um filme que não apenas apresentava um tom diferente, mas também possuía outra estrutura narrativa e outra concepção para diversos de seus personagens. E existe um elemento particularmente significativo para compreender essa ruptura: Chris Terrio também se distanciou publicamente do resultado.
Terrio havia trabalhado diretamente com Snyder no desenvolvimento do roteiro. Ambos ainda teriam tentado adicionar humor ao roteiro. Posteriormente, o roteirista revelou que tentou retirar seu nome dos créditos da versão lançada em 2017, afirmando que o filme não representava o trabalho que havia desenvolvido, mas um ato de vandalismo.
A declaração é relevante justamente porque vem de alguém que participou da construção da versão original ao lado de Snyder. Não se tratava, portanto, apenas de uma diferença de opinião entre dois diretores ou de uma disputa entre fãs sobre qual versão seria melhor. Um dos principais roteiristas envolvidos na concepção do projeto considerava que aquilo que chegou aos cinemas havia se afastado de maneira significativa do trabalho realizado anteriormente.
Diferenças conflitantes
A própria duração das duas versões ajuda a dimensionar essa diferença. A versão cinematográfica de 2017 possui aproximadamente duas horas, enquanto Liga da Justiça de Zack Snyder, lançado em 2021, aproxima-se das quatro horas. Mas a duração, isoladamente, não explica a dimensão da mudança. O que importa é o conteúdo que foi retirado, acrescentado, reescrito, reorganizado ou reconstruído durante o processo.
Na versão de Snyder, personagens recebem arcos que haviam sido reduzidos ou eliminados, determinadas relações ganham outro desenvolvimento e a estrutura narrativa recupera elementos que não estavam presentes no longa de 2017. O próprio tom do filme também retorna à abordagem que Snyder vinha desenvolvendo antes das intervenções posteriores. Isso ajuda a explicar por que o chamado Snyder Cut não pode ser entendido simplesmente como uma “versão estendida” do filme lançado nos cinemas.
Era, essencialmente, a oportunidade de recuperar um projeto que havia passado por uma transformação significativa durante sua produção.
Polêmicas nos bastidores de Liga da Justiça de 2017, sob a direção de Whedon
Há ainda outro aspecto importante nessa história: Snyder afirmou que não tinha conhecimento dos acontecimentos envolvendo Ray Fisher durante as filmagens conduzidas por Whedon. Fisher, que interpretou Victor Stone/Ciborgue, posteriormente acusou Whedon de comportamento abusivo durante a produção e também fez acusações contra executivos da DC Films. As alegações deram origem a uma investigação interna conduzida pela WarnerMedia.
Snyder deixou claro que não havia presenciado aqueles acontecimentos. Ao mesmo tempo, afirmou lamentar que integrantes do elenco e da equipe tivessem passado por uma experiência que considerava prejudicial.
“Eu não estava lá, então sua opinião sobre isso provavelmente vale tanto quanto a minha. […] Esses caras são meus amigos, atores incríveis e pessoas fortes. Quero que eles estejam bem e em uma situação saudável.”
Conclusão
Essa distinção é importante porque separa duas questões diferentes. A relação de Snyder com a Warner e sua percepção sobre a contratação de Whedon existiam antes das acusações feitas por Fisher. Já os acontecimentos relacionados às refilmagens ocorreram depois que Snyder havia deixado a produção. Assim, a história de Liga da Justiça não pode se reduzir a uma simples sucessão de eventos em que Snyder saiu, Whedon entrou e o filme chegou ao fim. A transformação começou antes.
Primeiro, a Warner passou a reagir à recepção de O Homem de Aço e Batman vs. Superman e a pressionar por mudanças de tom, sem assumir publicamente a mesma parcela de responsabilidade pelas decisões que haviam ajudado a moldar a recepção desses filmes. Depois, o estúdio buscou incorporar novos elementos ao roteiro, incluindo uma presença maior de humor. Nesse processo, Geoff Johns aproximou Whedon do projeto para contribuir com reescritas. Snyder ainda estava no comando quando essas mudanças começaram. Somente depois da morte de Autumn e de sua decisão de se afastar é que Whedon assumiu a responsabilidade pelas novas filmagens e pela conclusão do filme. A partir daí, a intervenção deixou de ser pontual e passou a envolver uma reconstrução significativa da produção. É por isso que a relação entre Snyder, Whedon e a Warner é tão importante para compreender o que aconteceu com Liga da Justiça.
Ou seja,
Whedon não surgiu simplesmente como o diretor que decidiu apagar o trabalho de Snyder. Geoff Johns trouxe Whedon para o projeto dentro de um contexto em que a Warner já buscava alterar a direção criativa do filme, sem reconhecer o próprio erro e permitindo que ele caísse sobre Snyder. Mas, quando Snyder deixou a produção, Whedon tornou-se o responsável por executar essa nova abordagem e o resultado final foi muito além das alterações inicialmente previstas.
O Lançamento de Liga da Justiça de Zack Snyder
Anos depois, quando Snyder finalmente teve a oportunidade de concluir sua própria versão, o público pôde comparar diretamente dois filmes construídos a partir de uma mesma produção, mas conduzidos por visões criativas profundamente diferentes. Essa comparação tornou visível algo que, até então, permanecia parcialmente escondido atrás da versão oficial de 2017: o filme que chegou aos cinemas não era apenas uma versão mais curta de Liga da Justiça. Era o resultado de um processo de transformação iniciado ainda durante a direção de Snyder e aprofundado depois de sua saída.
Não se tratava apenas de devolver ao diretor algumas cenas removidas. Tratava-se de descobrir o que Liga da Justiça seria se a visão original de Snyder e Terrio tivesse permanecido como eixo central da produção.
Fonte: Syfy, The Wrap e SnyderCutBR
Portal Zack Snyder • BR: De fã para fã
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