"Eu não sou fascista!", disse o diretor
A estreia de The Last Photograph no Festival Internacional de Cinema de Toronto reacendeu um velho padrão que acompanha a carreira de Zack Snyder: uma reação extremamente polarizada. Enquanto parte do público e da crítica elogia a identidade visual e a ambição do novo filme, outras avaliações foram duríssimas após a première mundial.Em entrevista à Variety, que ocorreu na manhã seguinte à estreia, Snyder falou abertamente sobre a repercussão que encontrou nas redes sociais e revelou que seu próprio feed do X foi tomado pelo debate em torno do longa.
Segundo o diretor, a intensidade das reações chegou a surpreendê-lo, especialmente porque The Last Photograph é uma produção independente, muito menor em escala do que seus trabalhos anteriores.
“Sou famoso por estar cercado por um determinado tipo de discurso que acontece em torno dos meus filmes. É extremamente carregado”, afirmou Snyder.
Ele explicou que imaginava que o tamanho reduzido da produção poderia fazer com que o filme escapasse, ao menos parcialmente, da guerra de opiniões que costuma acompanhar seus projetos.
“Pensei que, por um breve momento, talvez, por ser um filme pequeno e realmente não ser algo tão importante, ele pudesse existir no nível que quer que fosse. Que tipo de barulho um filme pequeno como este merece provocar no mundo?”, questionou.
“Quero matar Zack Snyder”?
Snyder revelou que, ao acordar na manhã seguinte à première, encontrou uma enorme quantidade de comentários sobre ele em seu feed do X.
“Esta manhã, acordei e fui direto para o meu feed do X, e o debate está extremamente energizado por essa batalha. É como se houvesse uma guerra acontecendo, instantaneamente”, contou.
Entre as mensagens que apareceram em seu feed, o diretor citou algumas das acusações mais agressivas que encontrou:
“Quero matar Zack Snyder.”
Segundo Snyder, as mensagens também o classificavam como “fascista”, “homofóbico” e até “bissexual”.
A sequência chamou a atenção do próprio diretor pela variedade das acusações.
“É ‘homoerótico’, ‘transfóbico’, ‘fascista’ e todas essas coisas”, afirmou.
Quando o entrevistador perguntou se a acusação de bissexualidade poderia estar relacionada ao fato de os dois protagonistas de The Last Photograph aparecerem frequentemente musculosos e sem camisa, Snyder respondeu com humor:
“Acho que sim!”
Apesar da intensidade dos ataques, Snyder observou uma mudança no próprio discurso que aparece em seu feed. Segundo ele, a discussão teria começado com mensagens muito mais agressivas contra sua pessoa, mas posteriormente passou a incluir usuários criticando aqueles que estavam exagerando na reação.
“Mesmo que eu ache que tenha começado com ‘Zack Snyder é uma merda!’, ‘Foda-se ele!’, ‘Seu fascista!’. O que acontece agora é: ‘Vocês são completamente malucos. É só um filme. Calma’”, explicou.
Para Snyder, muita gente já tinha uma opinião formada antes de assistir
O diretor também acredita que parte significativa da reação ao filme não está necessariamente relacionada ao que acontece na tela.
Durante a entrevista, Snyder chamou atenção para a diferença entre o número de pessoas que estavam presentes na sessão de Toronto e a quantidade de comentários publicados online.
“Havia apenas 1.200 pessoas no cinema e existem milhares de comentários!”, afirmou.
Ele citou o caso de uma publicação que encontrou nas redes sociais. Segundo Snyder, um usuário compartilhou um trecho do filme e escreveu que ainda não havia assistido à produção, mas tinha certeza de que ela seria horrível.
Para o diretor, esse tipo de comportamento demonstra como a figura de Zack Snyder pode se tornar mais importante para o debate online do que o próprio filme.
“Comigo, é mais chamativo dizer: ‘Eu odeio Zack Snyder! Ele é fascista!’ do que dizer: ‘Eu vi o filme e foi legal’. Ninguém dá a mínima para isso”, declarou.
Snyder ainda foi direto ao negar uma das acusações que encontrou no feed:
“Obviamente, eu não sou fascista.”
A violência contra mulheres e as acusações de misoginia
Uma das principais críticas feitas a The Last Photograph envolve a representação da violência contra mulheres e a quantidade de nudez presente no filme. Algumas reações acusaram Snyder de misoginia por causa da maneira como essas situações são apresentadas.
Questionado sobre o assunto, Snyder argumentou que a violência do filme não é direcionada exclusivamente às mulheres.
“Eu diria que a violência contra mulheres e homens é igual e que ninguém é poupado: homens, mulheres, crianças, todo mundo”, explicou.
Segundo ele, a violência mostrada na história não deveria ser interpretada como uma declaração moral sobre determinados grupos.
“A justiça aplicada no filme acontece da mesma forma que um furacão aplica sua justiça.”
Para Snyder, a própria violência funciona como parte da mensagem do filme.
“O significado é que a violência não funciona e não resolve nada.”
As críticas, entretanto, foram bastante severas após a exibição em Toronto. Algumas avaliações publicadas por espectadores e críticos classificaram o filme como um dos piores já exibidos no festival, enquanto outras destacaram a fotografia, as sequências de ação e a disposição de Snyder em trabalhar fora do modelo de seus grandes blockbusters.
Snyder compara a reação com o que aconteceu com 300
A situação também fez Snyder lembrar da estreia de 300 no Festival de Berlim. Segundo o diretor, o filme recebeu uma reação imediatamente hostil durante sua primeira exibição no festival.
“Todo mundo vaiou e saiu da sessão. Foi a primeira vez que exibimos o filme e ficamos tipo: ‘Que porra é essa?’”, relembrou.
Na época, Snyder afirma que o longa foi chamado de “um desastre”, “o pior filme de todos os tempos” e de filme “fascista”. A reação chegou ao ponto questionarem o diretor em uma coletiva de imprensa se era um “cineasta fascista”. Ao recordar a situação, Snyder também mencionou uma pergunta que recebeu em Berlim:
“Você é pró-gay ou pró-NRA (Movimento Pró-Armas)? Qual dos dois você é?”
A resposta do diretor foi:
“Olha, vou ser honesto: sou um pouquinho dos dois.”
Em seguida, Snyder fez uma das declarações mais curiosas da entrevista ao discutir a leitura homoerótica de 300.
“Obviamente, sou pró-gay. Fiz o filme mais gay já feito.”
Questionado novamente se realmente considerava 300 o filme mais gay da história, ele corrigiu:
“300 é um dos filmes mais gays já feitos.”
E completou, brincando:
“Existem poucos filmes em que as pessoas entram heterossexuais e saem gays, e 300 é um deles.”
“The Last Photograph” é um projeto pessoal para Snyder
Apesar de toda a discussão em torno da recepção, Snyder deixou claro que The Last Photograph representa algo muito mais pessoal do que seus trabalhos recentes.
O diretor contou que trabalha na ideia há aproximadamente duas décadas e que o projeto chegou a ter Christian Bale e Sean Penn associados ao elenco em determinado momento.
A produção finalmente aconteceu de maneira independente, em apenas 32 dias de filmagem, principalmente na Colômbia. Snyder também reconheceu que sua experiência pessoal acabou influenciando a história.
“Fui muito afetado pelo que passei. A história mudou um pouco e não consigo evitar; isso simplesmente vai acabar entrando nela.”
O cineasta afirmou que não começou a fazer o filme com a intenção de utilizá-lo como uma espécie de terapia. Mas, acredita que o processo acabou produzindo uma catarse.
“Sem ter a intenção de fazer uma sessão de terapia comigo mesmo, acho que isso aconteceu, e isso é real.”
O diretor não parece disposto a fugir do próprio estilo
Mesmo diante das críticas, Snyder não demonstrou arrependimento por ter feito o filme da maneira que queria. Ao falar sobre a própria identidade como cineasta, ele explicou que tem dificuldade em abandonar completamente o melodrama. Além da estética que sempre fizeram parte de seu trabalho.
“Estou sendo sincero, mas sempre tenho consciência de mim mesmo, e tenho dificuldade com dramas totalmente diretos sem o lado melodramático, que para mim é justamente a parte interessante.”
Essa postura ajuda a explicar por que The Last Photograph acabou provocando uma reação tão dividida. O filme é menor e mais independente, mas mantém elementos que historicamente fazem parte do cinema de Snyder: violência estilizada, imagens cuidadosamente compostas, temas extremos e uma abordagem bastante particular da narrativa.
Enquanto algumas críticas consideraram esses elementos excessivos, outras reconheceram justamente a força visual do longa.
No fim, Snyder parece compreender que a polarização faz parte de sua relação com o público.
“Somos todos humanos”, afirmou ao ser questionado sobre o impacto das críticas.
E, diante de mais uma onda de discussões sobre seu cinema, o diretor parece ter uma certeza: mesmo um filme independente e produzido longe da estrutura dos grandes estúdios continua sendo capaz de provocar uma enorme discussão em torno de seu nome.
Via: Variety
Portal Zack Snyder • BR: De fã para fã
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