Rebel Moon e a experiência de criar duas versões de propósito
Rebel Moon oferece talvez um dos exemplos mais claros de como a recepção de uma obra pode ser influenciada por fatores que existem antes mesmo de o público ter acesso à obra completa. A rejeição ao projeto, sob as lentes viciadas, começou antes de seu lançamento. Em setembro de 2023, nosso portal já documentava críticas negativas ao trailer, à duração, ao uso de câmera lenta, ao CGI e até à própria existência das versões do diretor. A discussão, portanto, já estava sendo construída em torno de uma percepção prévia sobre Snyder antes que Rebel Moon pudesse ser efetivamente avaliado como filme.
O episódio dos cortes do diretor tornou essa questão ainda mais evidente. Quando as versões estendidas de Rebel Moon foram disponibilizadas, veículos começaram a publicar críticas negativas 3 minutos depois de seus lançamentos, como a da Collider, tornando risível a situação. Isso estampou, categoricamente, que já havia uma crítica negativa aos Cortes do Diretor de Rebel Moon engavetadas dos dois filmes que, somados, totalizam mais de 6 horas de duração. E considerando que ambos os filmes foram lançados simultaneamente na Netflix, sem nem mesmo terem screenner exclusivo para imprensa, dá para concluir que a má vontade com o Zack Snyder nem é velada mais, virou piada. Independentemente da opinião que se tenha sobre os filmes, existe uma diferença objetiva entre assistir a uma obra e simplesmente reagir a ela antes que exista tempo material para conhecê-la em sua totalidade. Se uma crítica é publicada antes que seja humanamente possível consumir todo o conteúdo de 6 horas que está sendo avaliado em 3 minutos, ela deixa de representar uma análise integral daquela versão e passa a revelar também algo sobre as expectativas e predisposições de quem a produz. Em resumo, a crítica avaliou que houveram “acréscimo de cenas em câmera lenta”, mas continuava a apontar a falta de profundidade nos personagens e nenhuma informação relevante adicional. O que é uma baita mentira!
Esse episódio não prova que toda crítica negativa a Rebel Moon seja fruto de má-fé, apesar de estar sem dúvidas ser, nem que o filme esteja acima de qualquer avaliação desfavorável. O que ele demonstra é algo mais amplo: a recepção de uma obra pode ser condicionada por uma narrativa que já existe sobre ela, antes mesmo de o espectador conhecê-la. No caso de Snyder, isso se torna particularmente relevante porque parte dessa percepção foi construída ao longo de anos, acumulando críticas e rejeições associadas a filmes anteriores e, muitas vezes, atribuindo exclusivamente ao diretor decisões que também envolveram estúdios, exigências comerciais, alterações de montagem e outras circunstâncias de produção.
Assim, o público não chega necessariamente a um novo filme de Snyder começando do zero. Parte dele chega carregando uma opinião formada sobre o diretor, sobre seu estilo e sobre seus trabalhos anteriores. Quando essa predisposição passa a determinar a maneira como uma obra será interpretada antes mesmo de ela ser efetivamente conhecida, o julgamento deixa de depender exclusivamente do que está na tela. E isso ajuda a explicar por que a discussão sobre Snyder ultrapassa a qualidade individual de cada filme: ao longo do tempo, formou-se também uma narrativa sobre o próprio cineasta, e essa narrativa pode influenciar a recepção de qualquer obra que venha depois.
Falta de Continuidade
Além disso, Snyder conseguiu produzir as duas partes do Universo planejado de Rebel Moon, além de suas respectivas versões do diretor, e recebeu uma liberdade consideravelmente maior para desenvolver a mitologia de seu universo do que aquela que havia conseguido em outras produções. Entretanto, a história de Kora e de seus aliados foi concebida para continuar além de Rebel Moon — Parte Dois: A Marcadora de Cicatrizes. A busca pela princesa Issa e os conflitos envolvendo o Império foram estabelecidos como elementos de uma narrativa maior, e a interrupção do projeto deixa esse universo igualmente sem a conclusão originalmente imaginada. Ou seja, em Rebel Moon, Snyder conseguiu realizar duas partes da história e ainda produzir versões mais extensas e adultas dessas obras, mas a continuidade planejada para levar aquela mitologia adiante também não foi concretizada. E tudo isso somadas à uma crítica prévia, que seguiu sustentada por erros de exigência, interferência e abandono do estúdio.
O que une esses casos, portanto, não é a existência de cortes, mas diferentes formas de interferência na autoria da obra e a influência de uma crítica tão viciada, que já veio pronta antes mesmo de seu lançamento. Isso não significa que uma obra deva ser considerada boa simplesmente porque possuía uma continuação planejada, nem que toda crítica a um filme possa ser justificada pela ausência de seus capítulos seguintes, ou que não possa ser criticada. Significa apenas que uma narrativa concebida para se desenvolver ao longo de vários capítulos não pode ser avaliada exatamente da mesma maneira depois que parte desses capítulos deixa de existir e que nem toda crítica à obra, no caso do Snyder, diz respeito exatamente à obra em si, nem muito menos ser demonizada, só por ser do Snyder.

Isso é especialmente relevante quando se discute a recepção de seus filmes, sobretudo considerando o caso de Snyder, porque a construção de universos é uma característica recorrente de sua filmografia. O diretor frequentemente utiliza seus filmes para estabelecer mitologias, sugerir acontecimentos futuros e criar personagens cujas trajetórias não se encerram necessariamente dentro de uma única obra. Quando o projeto continua, essas escolhas podem ganhar novos significados; quando é interrompido, o público fica apenas com a primeira camada daquilo que havia sido planejado. E é justamente essa diferença que nos conduz de volta ao problema central desta análise. Sendo assim, no caso de Zack Snyder, a história dos cortes alternativos é apenas uma parte de uma questão muito maior: fica cada vez mais difícil tratar sua carreira apenas como uma questão de ‘filmes longos demais’ ou de ‘diretor que não sabe cortar’. Estamos falando também de autoria, controle criativo, planejamento de franquias, decisões empresariais, continuidade narrativa, da diferença entre aquilo que um cineasta consegue colocar na tela e aquilo que ele efetivamente recebe a oportunidade de desenvolver e concluir e, sobretudo, da recepção previamente negativa de suas obras, quando o assunto é Zack Snyder.
Por isso, a discussão não deveria se limitar à pergunta ‘quantas cenas de slow motion foram adicionadas ao corte do diretor?’. Em alguns casos, a pergunta mais importante é “quanto daquilo que foi planejado chegou a existir?” e, sobretudo, se houve uma predisposição em julgar a obra pelo que ela efetivamente apresentou ou o diretor por uma percepção construída sobre aquilo que se acredita ser a sua visão. Essa é uma questão que atravessa toda a filmografia analisada aqui: às vezes, o problema não está apenas no que foi cortado de um filme, mas no que foi impedido de continuar ou simplesmente nunca recebeu a oportunidade de existir e, em alguns casos, de ser julgado pelo que realmente foi apresentado, ou pela opinião prévia ao próprio diretor. Quanto a esta última, talvez seja pedir demais que alguns espectadores assistam primeiro e decidam depois. Nem deveriam ser chamados de críticos, mas puramente haters.
Versões PG-13 vs. Visão do Snyder
Se existe uma obra que precisa ocupar posição central em qualquer discussão sobre os cortes de Zack Snyder, é Rebel Moon. E justamente aqui é preciso fazer uma distinção que às vezes se perde quando a comparação é feita apenas com Liga da Justiça: as versões PG-13 e R-rated não nasceram de uma situação em que a Netflix pegou um filme pronto, retirou material e, posteriormente, precisou ser convencida a devolver as cenas ao diretor. O processo foi pensado desde o início para que o mesmo projeto pudesse existir em duas formas diferentes.
A Netflix queria uma versão mais comercial, com classificação PG-13 e duração mais próxima do padrão de um grande lançamento de ficção científica voltado a um público amplo. Snyder, por sua vez, havia desenvolvido uma história originalmente mais adulta e mais longa, com violência, sexualidade, linguagem e elementos de mitologia que não caberiam da mesma maneira dentro das limitações da versão principal. A solução encontrada foi incomum: em vez de produzir primeiro uma versão e deixar para depois a discussão sobre um eventual corte alternativo, a plataforma permitiu que Snyder construísse as duas abordagens. Cenas adicionais foram filmadas especificamente para os cortes do diretor, algo que Snyder e Deborah Snyder consideraram particularmente importante depois das experiências anteriores em que a existência de uma versão alternativa dependia de uma batalha posterior. Em Rebel Moon, portanto, a existência dos cortes foi incorporada ao próprio processo de produção.
Isso muda completamente a natureza da discussão. Desde o princípio, havia um acordo para que duas experiências fossem construídas a partir daquele mesmo universo. O próprio Snyder explicou que a existência da versão PG-13 tornou possível realizar também os filmes R-rated e chegou a descrever as duas abordagens como tão diferentes que poderiam ser entendidas quase como realidades alternativas, e não simplesmente como uma versão curta e outra longa da mesma edição. Entretanto, mesmo a versão PG-13, como foi dita, foi uma exigência da plataforma e recebeu muito mais força no marketing, do que os Cortes do Diretor. Curiosamente, em Rebel Moon, um fenômeno mais complexo foi notado: na versão PG-13, os críticos analisaram e apontaram a falta de desenvolvimento dos personagens, mas quando o Corte do Diretor foi lançado, com mais desenvolvimento e amarrando pontas soltas, os mesmos críticos, viciados por uma opinião de que “seus cortes só adicionavam cenas avulsas”, concluíram que os Cortes ficaram extensos demais e que não solucionaram os “vários problemas de Rebel Moon”. Mas, como essa análise seria justa se, em sua maioria, apenas repetiram a opinião de quem lançou a crítica de 6h de Cortes, em apenas 3 minutos de seu lançamento?
Essa diferença impede uma interpretação simplista em qualquer das duas versões. Não seria correto afirmar que a Netflix simplesmente destruiu Rebel Moon ao impor uma versão PG-13, porque Snyder participou conscientemente desse modelo de produção e teve a possibilidade de desenvolver a alternativa que considerava artisticamente mais próxima de sua concepção. Mas também seria simplista concluir que não houve qualquer interferência ou limitação. A versão que chegou primeiro ao público foi produzida dentro de parâmetros definidos pela plataforma, enquanto a versão posterior recebeu espaço para explorar aspectos que haviam sido deliberadamente deixados de fora ou reduzidos na primeira edição.
Além disso, a versão PG-13 recebeu uma campanha de divulgação muito mais ampla, fazendo com que fosse essa a experiência inicialmente apresentada à maior parte do público e influenciando, consequentemente, a recepção inicial da obra. A questão, portanto, está em compreender como os parâmetros definidos pela Netflix, as escolhas de Snyder e a estratégia de lançamento determinaram as diferentes formas pelas quais Rebel Moon chegou ao público. Isso só prova, mais uma vez, que avaliar as obras de Snyder e o diretor, não pode partir de uma premissa simples de qualidade e coerência. Envolve um universo de complexidade, estudo de caso e fundamentação, que é o que esse editorial busca fazer.
As diferenças processuais entre duas versões
A diferença entre as versões também não se resume à presença de sangue, nudez ou palavrões, embora esses elementos sejam evidentes nos cortes do diretor. As versões R-rated receberam mais tempo para aprofundar a mitologia, desenvolver personagens, ampliar sequências de ação e apresentar elementos do universo que haviam sido reduzidos na versão PG-13. Essas versões também ampliam núcleos narrativos e elementos do universo que apontam para possibilidades de desenvolvimento além dos filmes realizados, tornando mais perceptível a dimensão de um Rebelverse que Snyder pretendia continuar explorando. Snyder explicou que aproximadamente duas horas de material novo foram produzidas para os dois cortes do diretor, além das alterações realizadas em cenas que já existiam. Isso significa que não estamos diante de uma simples operação de retirar elementos adultos de um filme pronto para torná-lo adequado a uma classificação mais baixa. As duas versões foram pensadas para produzir experiências narrativas diferentes a partir do mesmo material de origem.
O processo chegou a um nível ainda mais particular durante as próprias filmagens. Snyder explicou que determinadas cenas foram trabalhadas com tomadas diferentes para as duas versões, chegando ao ponto de algumas performances serem selecionadas especificamente para a edição PG-13 ou para a R-rated. Em outras palavras, não se tratava apenas de filmar uma cena e, posteriormente, remover sangue, nudez ou palavrões durante a edição. Em determinados momentos, havia efetivamente escolhas diferentes de atuação e construção de cena para cada experiência. Isso reforça que os cortes não são simplesmente uma versão “censurada” e outra “sem censura”, mas produtos concebidos paralelamente a partir de objetivos diferentes.
É justamente por isso que Rebel Moon é tão importante para esta análise. Pela primeira vez na trajetória discutida até aqui, o próprio modelo de produção incorporou a ideia de que uma única história poderia ser apresentada ao público sob duas formas distintas sem que uma delas precisasse ser tratada como um acidente ou como uma versão clandestina. A versão PG-13 cumpria uma função comercial específica da plataforma, enquanto os cortes do diretor permitiam que Snyder explorasse uma experiência mais próxima daquela que desejava realizar. As duas versões, portanto, não precisam ser compreendidas apenas como uma tentativa de determinar qual delas é a “verdadeira”, mas como resultados diferentes de uma mesma produção.
E aqui aparece uma das declarações mais reveladoras de Snyder sobre sua própria carreira. Em entrevista à WIRED, o diretor explicou que, ao longo dos anos, desenvolveu uma maneira própria de trabalhar com uma versão mais livre daquilo que gostaria de fazer e que, em sua experiência, os cortes do diretor costumam ser considerados melhores do que as versões cinematográficas. A declaração revela algo importante para a nossa análise: a existência de uma segunda versão já não aparece apenas como uma anomalia na carreira de Snyder; ela se tornou parte consciente de sua maneira de pensar e estruturar o próprio trabalho.
No caso de Rebel Moon, porém, essa liberdade encontrou um limite que vai além da montagem, apesar de ainda receber uma influência da plataforma. Embora o acordo com a Netflix tenha permitido que Snyder desenvolvesse suas versões do diretor, isso não significou que o universo criado para esses filmes pudesse necessariamente alcançar a dimensão planejada pelo cineasta. Snyder conseguiu produzir duas partes da história e apresentar versões mais próximas de sua concepção, mas a continuidade que levaria aquela mitologia além delas não foi concretizada.
É por isso que Rebel Moon não deve ser tratado simplesmente como o momento em que “Snyder finalmente teve liberdade”. Ele teve, sim, uma liberdade criativa muito maior para construir suas versões, mas essa liberdade coexistiu com limites comerciais e com uma limitação ainda mais ampla: a impossibilidade de levar adiante toda a história que havia começado. Então, concluímos que ter liberdade sobre a edição de uma obra não é o mesmo que ter controle sobre o destino da obra e Rebel Moon evidencia justamente essa diferença.
Contudo, Rebel Moon leva essa questão para outro estágio porque, nesse caso, a recepção negativa não surgiu simplesmente depois que o público teve acesso à versão que Snyder pretendia apresentar. A imagem do projeto já vinha sendo construída antes mesmo de seu lançamento, e as versões PG-13 chegaram ao público carregando expectativas e comparações que passaram a influenciar a maneira como a obra era discutida. Quando os Cortes do Diretor finalmente foram lançados, trazendo aproximadamente duas horas adicionais entre as duas partes e ampliando personagens, contexto e elementos do universo, a discussão não recomeçou do zero. A nova versão foi recebida por um público que já havia formado uma opinião sobre Rebel Moon e, em muitos casos, sobre o próprio Snyder. Isso torna especialmente revelador o fato de que críticas aos Cortes do Diretor surgiram praticamente imediatamente após seu lançamento, antes que fosse razoável supor uma experiência cuidadosa com versões que, juntas, ultrapassam seis horas de material.
Então, não se trata de afirmar que uma obra não possa ser criticada rapidamente ou que a duração adicional a torne automaticamente melhor. O que esse episódio demonstra é algo diferente: quando uma obra já chega cercada por uma narrativa crítica consolidada, até mesmo uma versão substancialmente modificada pode ser recebida através da mesma lente construída anteriormente. A experiência de Rebel Moon, portanto, ajuda a evidenciar como a recepção de um filme pode ultrapassar aquilo que está efetivamente na tela e carregar consigo expectativas, preconceitos e julgamentos formados antes mesmo de o espectador ter contato com a versão que está sendo avaliada.