Army of the Dead e a experiência de receber diretamente a versão do diretor
Depois de Liga da Justiça, Snyder encontrou na Netflix uma relação profissional significativamente diferente daquela que havia experimentado em seus trabalhos anteriores na Warner Bros. Army of the Dead: Invasão em Las Vegas, lançado em 2021, representou seu retorno aos filmes de zumbis, mas também algo maior: a oportunidade de criar uma propriedade original, sem depender de uma franquia preexistente, que pudesse posteriormente se expandir para outros filmes e projetos derivados. A própria concepção do filme já apontava nessa direção, apresentando um universo com regras próprias, personagens que poderiam continuar suas histórias e elementos narrativos deliberadamente deixados em aberto para possíveis desenvolvimentos futuros.
Sobre Army of the Dead, a crítica foi implacável. Mais uma vez, porém, é preciso observar que parte dessa recepção não pode ser dissociada da lente que já havia se consolidado em torno de Zack Snyder: não se tratava apenas de analisar o filme, mas, em muitos casos, de reencontrar nele aquilo que determinados críticos já haviam decidido que existia no diretor. A violência, a estética, o humor, a estrutura narrativa e até escolhas que poderiam ser discutidas simplesmente como características de um filme de ação e zumbis acabavam frequentemente interpretadas dentro de uma leitura muito mais ampla sobre “o que Snyder representa”. O público, entretanto, contou uma história consideravelmente diferente. Army of the Dead alcançou 72 milhões de lares em sua primeira semana na Netflix e chegou a aproximadamente 75 milhões nos primeiros 28 dias, acumulando mais de 186 milhões de horas assistidas. Ou seja, a recepção crítica negativa não conseguiu traduzir integralmente a recepção popular da obra, na Netflix. O Armyverse não apenas encontrou público como se tornou um dos projetos originais de maior alcance da Netflix naquele período, dando origem a Army of Thieves e a planos para uma expansão ainda maior daquele universo. A discrepância é particularmente relevante para esta análise: quando a crítica já chega diante de um filme carregando uma opinião formada sobre seu diretor, seus julgamentos podem dizer tanto sobre a obra quanto sobre a lente através da qual ela foi observada.
Curiosamente, Army of the Dead não apresenta um grande Corte do Diretor que precise ser recuperado. Diferentemente de Batman vs. Superman, não existe uma edição posterior que acrescente dezenas de minutos considerados fundamentais para compreender a narrativa e, diferentemente de Liga da Justiça, não existe uma segunda versão substancialmente reconstruída por outro cineasta. Snyder afirmou que recebeu liberdade para fazer o filme que queria e que a versão lançada correspondia essencialmente à obra que pretendia entregar. Nesse aspecto específico, Army of the Dead não foi essencialmente mutilado pelo estúdio ou pela plataforma: Zack Snyder recebeu espaço criativo para concluir sua montagem, e a versão apresentada ao público é, de fato, aquela que o diretor pretendia lançar.

O problema da falta de continuidade de um universo planejado
Mas existe uma diferença fundamental entre receber liberdade para concluir um filme e ter a oportunidade de concluir a história e o universo que esse filme iniciou. Mais uma vez, o fato de Army of the Dead ter chegado ao público como o filme que Snyder queria fazer não significa que o projeto tenha recebido a mesma liberdade para se desenvolver além daquele segundo capítulo, complementado por Army of Thieves: Invasão na Europa. O Armyverse foi concebido desde sua origem com possibilidade de expansão, e a própria Netflix chegou a anunciar Planet of the Dead e Army of the Dead: Lost Vegas, como projetos destinados a continuar e ampliar aquele universo. Portanto, quando o Armyverse é posteriormente interrompido e esses projetos não avançam, permanecem pontas soltas na narrativa que não podem ser atribuídas simplesmente a um problema de montagem ou coesão do filme em si, mas também à interrupção de uma história que havia sido planejada para continuar. O que poderia ser desenvolvido posteriormente deixa de existir como continuação, fazendo com que elementos introduzidos no primeiro filme permaneçam sem resolução não porque necessariamente faltasse uma conclusão planejada, mas porque a narrativa que deveria fornecê-la não teve a oportunidade de seguir adiante.
Isso pode afetar a maneira como o Armyverse é percebido. Uma história que introduz personagens, regras, mistérios e possibilidades de expansão pode ser deliberadamente construída pensando no que virá depois. O espectador aceita determinadas perguntas sem resposta porque existe a expectativa de que elas serão desenvolvidas em uma continuação. Quando essa continuação deixa de existir, entretanto, aquilo que antes funcionava como preparação pode passar a ser percebido como uma ponta solta. Não porque o primeiro filme necessariamente tenha falhado em sua proposta imediata, mas porque as possibilidades narrativas que ele criou deixam de receber desenvolvimento.
Army of the Dead é particularmente interessante nesse sentido porque a própria concepção do universo apontava para algo maior. O filme não se limitava à história de um grupo tentando sobreviver em uma Las Vegas tomada por mortos-vivos. Snyder introduziu diferentes tipos de zumbis, regras próprias para aquele mundo, personagens cujas histórias poderiam continuar e elementos que permitiam imaginar desdobramentos posteriores. A existência de projetos derivados reforçava essa intenção de transformar o longa em ponto de partida para uma mitologia maior. Assim, a ausência de Planet of the Dead e Lost Vegas não alteram retroativamente a montagem de Army of the Dead, mas alteram inevitavelmente o contexto em que essas montagens podem ser recebidas.
A autoria de um cineasta não está apenas naquilo que ele consegue colocar em uma obra individual, mas também na possibilidade de desenvolver, aprofundar e concluir as ideias que aquela obra inaugura. Por isso, Army of the Dead não deveria ser utilizado simplesmente como prova de que “na Netflix, Snyder finalmente teve liberdade e tudo funcionou bem”. A realidade é mais complexa. E esse não é um fenômeno isolado na relação de Snyder com seus projetos. O mesmo padrão aparece novamente em Rebel Moon, embora por circunstâncias diferentes. Até aqui, estávamos falando principalmente de versões: aquilo que foi cortado, aquilo que foi restaurado e aquilo que o diretor considera sua montagem definitiva. A partir daqui, porém, a análise pode ampliar essa definição: existe também aquilo que não foi cortado de um filme, mas simplesmente nunca chegou a ser produzido porque a história foi interrompida antes de sua conclusão.
O mesmo aconteceu com Rebel Moon.
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