Madrugada dos Mortos: o primeiro corte alternativo
Quando Zack Snyder estreou no cinema com Madrugada dos Mortos, em 2004, ele ainda estava muito distante do cineasta que o público passaria a associar, nos anos seguintes, às adaptações de histórias em quadrinhos, universos compartilhados, grandes produções de Hollywood e, posteriormente, ao próprio fenômeno dos cortes alternativos. Até então, Snyder era conhecido principalmente por seu trabalho em publicidade e videoclipes, e Madrugada dos Mortos representava sua primeira oportunidade de dirigir um longa-metragem. O projeto também carregava um peso considerável por se tratar de uma releitura de Dawn of the Dead, clássico de 1978 dirigido por George A. Romero, uma obra fundamental para o universo de zumbis. Em vez de simplesmente reproduzir o filme de Romero, Snyder e o, então, roteirista James Gunn, construíram uma história que preservava a ideia central de um grupo de sobreviventes refugiado em um shopping enquanto adotava uma abordagem diferente para o gênero, inclusive apresentando zumbis muito mais rápidos e agressivos do que aqueles tradicionalmente associados ao cinema de Romero.
A versão que chegou aos cinemas já apresentava diversas características que posteriormente seriam reconhecidas como marcas do estilo de Snyder, especialmente sua relação com a ação, a violência estilizada, a construção visual extremamente controlada e o interesse por transformar sequências de gênero em experiências visualmente intensas. No entanto, quando o filme chegou ao mercado doméstico, o público recebeu também uma versão mais longa, apresentada como Corte do Diretor sem classificação indicativa, que acrescentava um material que não havia permanecido na edição cinematográfica. Essa versão não representava uma reconstrução radical do filme nem alterava completamente sua estrutura, mas permitia recuperar cenas e momentos que haviam sido retirados da versão destinada aos cinemas.
A diferença entre as duas versões ainda é relativamente modesta quando comparada ao que aconteceria posteriormente na carreira de Snyder, e justamente por isso é importante não transformar Madrugada dos Mortos em algo que ele não foi. Não estamos diante de duas obras completamente diferentes, como aconteceria anos depois com Liga da Justiça, nem de uma situação em que uma versão autoral permaneceu escondida durante anos enquanto o público discutia um filme que não correspondia à concepção do diretor, como Sucker Punch. O que existe aqui é muito mais próximo do modelo tradicional de uma edição estendida ou de um corte doméstico mais abrangente, no qual o material filmado para a obra retorna posteriormente para uma experiência mais longa.

Ainda assim, há uma importância histórica nesse primeiro caso que vai muito além da quantidade de minutos adicionados. Madrugada dos Mortos inaugura, logo no primeiro longa-metragem de Snyder, uma característica que passaria a acompanhar sua filmografia: a existência de uma diferença entre aquilo que chega inicialmente ao público e aquilo que pode posteriormente ser apresentado em um Corte do Diretor. Naquele momento, isso não tinha nada de extraordinário. Muitos filmes recebem versões estendidas ou cortes alternativos quando chegam ao mercado doméstico, e não havia qualquer razão para imaginar que aquele lançamento se tornaria o primeiro capítulo de uma relação tão peculiar entre Snyder, suas edições e a percepção pública de sua obra.
Também não havia ali um “Snyder Cut” no sentido que a expressão adquiriria anos depois. Não existia uma campanha pública exigindo a recuperação de uma versão específica, não havia uma disputa de grandes proporções em torno da autoria da edição e tampouco uma percepção generalizada de que o filme lançado nos cinemas havia sido fundamentalmente reconstruído contra a vontade do diretor. A situação era consideravelmente mais simples: uma versão cinematográfica havia sido lançada e, posteriormente, uma edição doméstica mais longa permitia ao espectador conhecer uma parcela maior do material produzido.
É justamente por isso que Madrugada dos Mortos funciona tão bem como ponto de partida para esta análise editorial. Ele não prova que Snyder teve seus filmes sistematicamente mutilados, mas demonstra algo muito mais discreto, porém retrospectivamente significativo: desde o primeiro filme de sua carreira, já existia uma versão posterior capaz de oferecer ao público mais daquilo que havia sido filmado originalmente.
Mas antes de chegar a qualquer um desses casos, existe uma exceção importante que precisa ser preservada justamente para que a análise não se transforme em uma defesa automática de Snyder contra qualquer crítica ou em uma acusação indiscriminada contra os estúdios.
Essa exceção é 300.
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