O Homem de Aço: quando não existe um corte secreto
Embora não exista uma versão alternativa substancial do filme que revele uma obra completamente diferente de O Homem de Aço, sua produção também ajuda a compreender que a questão da autoria é mais complexa do que a simples existência ou não de um Corte do Diretor.
Quando Snyder dirigiu O Homem de Aço, em 2013, ele entrou em uma produção que precisava simultaneamente apresentar uma nova versão cinematográfica do Superman e estabelecer as bases para aquilo que posteriormente se tornaria o universo compartilhado da DC. O resultado foi um filme que provocou discussões intensas desde o lançamento, principalmente em relação ao tom, à representação de Superman, à destruição de Metrópolis e às escolhas de Clark Kent. Snyder não estava simplesmente tentando reproduzir a imagem do personagem construída pelo cinema de Richard Donner e eternizada por Christopher Reeve; sua proposta era reinterpretar Superman para uma geração diferente, utilizando uma abordagem mais mitológica, mais contemporânea e profundamente influenciada pela maneira como os quadrinhos modernos passaram a representar o personagem.
Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre O Homem de Aço e praticamente todos os outros casos que serão analisados ao longo desta análise editorial: não existe um Snyder Cut de O Homem de Aço esperando para ser descoberto. O próprio Snyder já esclareceu que não há uma versão secreta do filme que tenha sido retirada dele antes do lançamento e que a montagem que chegou aos cinemas corresponde essencialmente àquilo que ele pretendia entregar. Mas isso também não significa que tudo aquilo que chegou às telas represente necessariamente cada uma das escolhas que Snyder originalmente desejava fazer.
A culpa que o Estúdio nunca quis assumir
Essa diferença parece pequena, mas é fundamental. Um filme não é resultado apenas da montagem final. Existe roteiro, desenvolvimento, design de produção, fotografia, figurino, elenco, classificação indicativa, decisões de marketing, limitações orçamentárias, exigências do estúdio e inúmeras outras escolhas que acontecem muito antes de alguém sentar diante de uma ilha de edição. Um diretor pode ter sua montagem preservada e, ainda assim, ter precisado negociar ou abandonar determinadas ideias durante a própria produção.
O traje do Superman é um exemplo particularmente revelador. Durante o desenvolvimento de O Homem de Aço, Snyder não simplesmente decidiu eliminar a tradicional cueca vermelha porque considerava o elemento ridículo ou ultrapassado. Pelo contrário: ele queria mantê-la. Em entrevistas sobre o desenvolvimento do uniforme, o diretor contou que “tentou como um louco” encontrar uma maneira de preservar as tradicionais peças vermelhas e chegou a analisar aproximadamente 1.500 versões do traje com a cueca. Segundo Snyder, havia uma pressão contrária à sua utilização e uma exigência direta do estúdio e, depois de inúmeras tentativas, essas versões acabaram sendo abandonadas.
É verdade que, em material de bastidores divulgado pela produção, Snyder também explicou que havia tentado centenas de versões com a cueca e que elas acabaram sendo descartadas porque ele não conseguia fazê-las parecer coerentes com o mundo contemporâneo e mais tecnológico que estavam construindo. Deborah Snyder, por sua vez, explicou que o elemento remetia à tradição dos homens fortes da era vitoriana. Portanto, a história não deve ser reduzida a uma afirmação simplista de que “a Warner arrancou a cueca do traje”: o que podemos afirmar com segurança é que a preferência inicial de Snyder era preservá-la, mas o processo de desenvolvimento terminou sem ela, depois de inúmeras tentativas e discussões sobre como modernizar o personagem, exigência esta da própria Warner.
Outra exigência do estúdio foi que O Homem de Aço não utilizasse a tradicional música-tema de Superman, composta por John Williams. A partir dessa restrição, Snyder tomou uma decisão criativa própria ao escolher Hans Zimmer para desenvolver uma nova identidade musical para o personagem, substituindo uma das marcas sonoras mais reconhecíveis do Superman por uma abordagem que acompanhasse a releitura proposta pelo filme. A nova trilha também acabou demonstrando como a recepção do público poderia se distanciar da reação da crítica: embora a ausência do tema clássico tenha sido alvo de críticas por parte de alguns “especialista”, a composição de Zimmer conquistou uma parcela significativa do público e se tornou uma das características marcantes daquela nova interpretação do Superman.
E justamente por isso o exemplo é tão importante. A versão final de um filme pode ser genuinamente a montagem do diretor e, ainda assim, não ser um registro perfeito de todas as suas preferências criativas ao longo do processo. A autoria cinematográfica é muito mais complexa do que imaginar que o diretor simplesmente decide tudo sozinho, filma exatamente aquilo que imaginou e depois monta o material sem precisar fazer concessões.
A recepção negativa pela crítica “especializada”
No caso de O Homem de Aço, isso significa que não podemos dizer que existe um “filme verdadeiro” escondido esperando ser restaurado, como aconteceu com Liga da Justiça. Mas também não devemos cair no extremo oposto de imaginar que cada decisão presente na tela foi necessariamente a primeira opção de Snyder ou que nenhuma pressão externa interferiu no processo criativo dele. Essa distinção se torna ainda mais importante quando observamos a maneira como o filme foi recebido. Quando O Homem de Aço estreou em 2013, parte significativa da crítica cinematográfica já olhava para o trabalho do Snyder através de uma “lente viciada” pelos debates de 300. Havia uma predisposição em enxergar traços totalitários, desdém institucional e um culto à força bruta em qualquer projeto que ele assumisse.
Para os “especialistas” que já o viam com desconfiança, a decisão de tratar o Superman como um alienígena incompreendido e temido, focado no peso de sua existência física e messiânica, foi interpretada como uma nova manifestação do conceito do Übermensch (o “Super-Homem” de Nietzsche), um ser superior que opera inteiramente acima das leis e instituições humanas comuns. Em vez de a cena-clímax do combate devastador de proporções catastróficas entre o Superman e o General Zod, que reduziu grande parte dos arranha-céus da cidade a pó, ser lida apenas como um espetáculo de ação moderna de ficção científica, o nível de destruição colateral foi duramente criticado como “indiferença pelas vidas humanas normais”. Os críticos apontaram que o filme glorificava o choque brutal de forças titânicas em detrimento das vítimas civis institucionais, um elemento frequentemente associado a estéticas militaristas e fascistas. Por fim, quando o Superman quebra o pescoço de Zod para impedir que ele assassine uma família indefesa com sua visão de calor, para os detratores do diretor, essa cena serviu como a “prova de crime” definitiva de que Snyder não compreendia o personagem e preferia a imposição unilateral da morte como solução cabível, ignorando o sistema de justiça, sendo descrito por alguns jornais como a consolidação de um salvador autoritário que atua como júri, juiz e executor.
Mas, existe um detalhe que foi absurdamente ignorado pelos críticos da época, e infelizmente ainda se estende nos dias de hoje:para essas decisões, Snyder baseou-se em arcos clássicos e modernos bem específicos para construir o dilema moral de O Homem de Aço, como “Superman: O Homem de Aço (1986), de John Byrne”, que serviu de base para Clark Kent ser um jovem mais introspectivo e vulnerável; os quadrinhos dessa mesma fase (Superman #22 de 1988), onde o herói enfrenta o General Zod e outros criminosos kryptonianos e, sem outra alternativa para proteger a Terra, ele os executa usando kryptonita e cujo baque emocional é tão grande que Clark chega a se exilar no espaço por culpa; “Whatever Happened to the Man of Tomorrow? (1986), de Alan Moore”, considerada uma das histórias mais importantes do Superman, onde ele é forçado a matar o vilão extradimensional Sr. Mxyzptlk para salvar vidas e cujo peso de quebrar seu próprio código moral faz com que ele decida abrir mão de seus poderes e se aposentar permanentemente; e “All-Star Superman (2005), de Grant Morrison”, que embora seja uma das HQs mais luminosas do herói, inspirou profundamente os diálogos filosóficos do filme, como o famoso discurso de Jor-El em O Homem de Aço sobre Kal-El dar um ideal para os humanos seguirem e, com o tempo, eles “se juntarem a ele no Sol”: é uma adaptação direta da obra de Morrison.
Além disso, o paradoxo dessa recepção crítica viciada é que o filme traz uma mensagem explicitamenteantifascista, que muitos analistas ignoraram na época: O planeta natal de Clark, Krypton, é apresentado como uma sociedade eugênica, fria, totalitária, de castas geneticamente modificadas e sob controle de um conselho militar ditatorial (Zod). Ao rejeitar os planos de Zod e lutar para proteger a Terra, o Superman de Snyder escolhe deliberadamente abdicar da supremacia de sua própria raça em prol do livre-arbítrio da humanidade.

Recepção real do público
Entretanto, O Homem de Aço não foi simplesmente um filme que chegou aos cinemas, recebeu críticas negativas e foi unanimemente rejeitado pelo público. A história real de sua recepção é muito mais complexa. Desde o lançamento, existia uma diferença perceptível entre a reação de parte significativa da crítica profissional e a reação dos espectadores. O TheWrap, por exemplo, registrou ainda durante o período de estreia que, apesar da recepção crítica fria, o filme havia recebido A- no CinemaScore, enquanto a Warner destacava o forte boca a boca entre os espectadores.
Influência da crítica sobre a versão que será analisada
Essa diferença não é um detalhe estatístico irrelevante. Ela importa porque a recepção de um filme não é construída apenas por aquilo que o público pensa quando sai da sala de cinema. Críticas são publicadas, manchetes são produzidas, comentários são reproduzidos, análises são compartilhadas e determinadas interpretações acabam se tornando dominantes e influenciando o público a mudarem radicalmente de opinião. Quando uma obra extremamente popular entre uma parcela de seus espectadores é simultaneamente apresentada como uma grande decepção por parte da crítica, cria-se uma disputa pela própria definição do que aquele filme representa. E O Homem de Aço entrou exatamente nesse território.
A crítica negativa não ficou restrita à avaliação de aspectos específicos do filme. Muito rapidamente, as discussões passaram a atingir o próprio Snyder e sua compreensão do personagem. O problema deixou de ser apenas “eu não gostei dessa versão do Superman”, e passou, em determinados círculos, a assumir a forma de “Snyder não entende Superman”. Só que criticar uma escolha específica é absolutamente legítimo. Transformar todas as escolhas de uma obra em evidências de uma suposta incapacidade artística do diretor ou, propositalmente radicalizá-la, polarizá-la e demonizá-la é outra coisa. E, quando esse tipo de interpretação passa a ser repetida continuamente, ela deixa de funcionar apenas como opinião individual e começa a contribuir para a construção de uma narrativa coletiva sobre determinado cineasta. E, infelizmente, isso acontece até hoje, quando o assunto é Snyder.
O erro dessa visão simplista e moralmente ignorante reside em tratar a crítica de um filme como uma declaração de guerra. A verdade por trás dessa trajetória revela, portanto, que parte das críticas direcionadas ao diretor precisa ser analisada também à luz das circunstâncias que determinaram a obra que chegou ao público e do tribunal da opinião pública da época. Nem tudo aquilo que é percebido como uma escolha de Snyder nasceu necessariamente de sua vontade, e nem toda reação negativa a seus filmes pode ser dissociada das condições em que essas obras foram produzidas, modificadas, apresentadas ao espectador e recebidas pela crítica “especializada”. ~ E, aqui, coloco entre aspas, porque se fosse especializada, mesmo, saberiam das referências dos quadrinhos que Snyder utilizou para entregar o que o Estúdio exigiu. Por acaso, nosso Portal faz bem melhor esse papel do que todos eles reunidos.
A mudança de rota: O Rotten Tomatoes admitiu que estava errado
É nesse contexto que o reconhecimento posterior do próprio Rotten Tomatoes se torna particularmente interessante. Em 2022, quase nove anos depois da estreia, a própria plataforma publicou um editorial intitulado “O Rotten Tomatoes estava errado sobre… O Homem de Aço”, revisitando a recepção do filme e reconhecendo que seu Tomatometer de 56% não correspondia à percepção de uma parcela significativa do público. O texto destaca o Audience Score de 75% e apresenta o crítico John Rocha defendendo que a avaliação crítica deveria ser maior, chegando a considerar que o filme estava à frente de seu tempo e que uma revisão poderia fazer com que espectadores que não gostaram dele inicialmente desenvolvessem uma nova apreciação pela obra. Isso é particularmente significativo porque não estamos falando de fãs do Snyder reclamando que um agregador não gosta do diretor. Estamos falando da própria plataforma revisitando publicamente uma avaliação que ajudou a registrar a recepção crítica do filme e perguntando se aquela avaliação realmente fazia justiça à obra.
Então, o que foi realmente analisado em O Homem de Aço?
E aqui chegamos ao ponto que interessa para a nossa análise editorial: O Homem de Aço demonstra que “não existir um Corte do Diretor” não é a mesma coisa que “esta é uma representação absolutamente pura e incontestável da visão de Snyder em todos os aspectos”. Não existe uma montagem secreta que precise ser encontrada. Assim como não existe uma Ultimate Edition com meia hora de material narrativo removido. Nem muito menos existe uma Zack Snyder’s Man of Steel que possa ser colocada ao lado do filme de 2013 para provar que o público recebeu uma obra completamente diferente. Existe, porém, um processo criativo no qual determinadas ideias do diretor foram negociadas, modificadas ou abandonadas antes mesmo de a câmera registrar a versão definitiva da história.
E, quando o resultado chega ao público, essas decisões internas podem desaparecer por trás do nome do diretor, fazendo com que escolhas que não partiram exclusivamente dele sejam incorporadas à percepção que se constrói sobre o seu cinema. No fim, o peso recaiu, até hoje, sobre o Snyder. A responsabilidade pelas decisões que envolveram o filme foi frequentemente concentrada nele, enquanto as circunstâncias de produção, as imposições do estúdio e as escolhas que aconteceram fora de seu controle acabaram ficando em segundo plano.
E O Homem de Aço ainda carregava um elemento particularmente sensível: tratava-se de uma nova interpretação de Superman, um personagem cuja imagem cinematográfica estava profundamente associada ao legado de Christopher Reeve e à música de John Williams. Ao mexer em elementos tão queridos e reconhecíveis, Snyder não estava apenas apresentando sua própria leitura do personagem; estava também confrontando expectativas afetivas que parte do público carregava havia décadas. A rejeição a determinadas escolhas, portanto, acabou se misturando à rejeição à própria releitura e, posteriormente, à imagem que se construiu em torno do diretor. É nesse ponto que Homem de Aço se torna fundamental para compreender algo que ultrapassa sua própria recepção: como uma primeira impressão negativa pode se transformar em uma espécie de lente através da qual trabalhos posteriores passam a ser observados, fazendo com que novas obras sejam recebidas não apenas pelo que apresentam, mas também pelo histórico de rejeição que o público já associa ao nome de Snyder.
Isso é precisamente o que precisamos compreender quando falamos sobre “a visão de Zack Snyder”. Às vezes, a alteração acontece na montagem, ou durante as refilmagens, no roteiro, no design, na classificação indicativa… E, em alguns casos, acontece simplesmente porque determinada ideia do diretor não consegue sobreviver às exigências do estúdio, nem às críticas infundadas de quem cede à agressividade um debate público já viciado e hostil. O Homem de Aço é importante porque mostra essa última dimensão. Ele, também, deve ser usado como exemplo de que autoria cinematográfica não termina na sala de edição. A ausência de um corte alternativo não apaga as escolhas e concessões que aconteceram antes da montagem final. Essa é uma diferença que parece pequena, mas muda completamente a maneira como devemos falar sobre autoria.
E isso torna Batman vs. Superman ainda mais curioso.
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