Batman vs. Superman e a diferença entre confusão e falta de informação
Além da “lente viciada” que já começava a se formar entre parte dos críticos em torno de Snyder, sempre procurando um pêlo em ovo para confirmar a imagem que vinha sendo construída sobre o diretor, essa percepção também passou a interferir diretamente no contexto em que Batman vs. Superman (2016) foi recebido. E existe uma ironia particularmente interessante nisso: justamente quando Snyder decide confrontar algumas das acusações que começavam a ser associadas ao seu cinema, o filme é recebido através da mesma lente que já vinha sendo construída sobre ele. Em vez de simplesmente apresentar Superman como uma figura incontestavelmente heroica, Snyder coloca o próprio Batman, a sociedade e o mundo diante das consequências de um ser com poderes praticamente divinos agir de maneira unilateral. A questão central não é apenas se Superman é bom ou mau, mas o que acontece quando alguém com poder suficiente para alterar o destino da humanidade passa a agir segundo seu próprio julgamento, sem estar submetido a qualquer autoridade capaz de questioná-lo. O filme, portanto, não ignora as acusações de autoritarismo que começavam a ser associadas à estética de Snyder; ele as incorpora ao próprio conflito narrativo e transforma essa preocupação em uma das perguntas centrais da história.
O problema é que essa intenção narrativa precisava ser percebida dentro de uma obra que também estava submetida a outras decisões de produção. E é justamente aqui que a questão da autoria volta a aparecer: não basta que uma ideia esteja presente no filme se a maneira como ela é apresentada ao público altera a possibilidade de compreendê-la. Em Batman vs. Superman, essa diferença entre aquilo que Snyder estava construindo e aquilo que o espectador conseguiu perceber na versão lançada nos cinemas se tornaria particularmente importante.
Batman vs. Superman: A Origem da Justiça talvez seja o exemplo mais claro, antes de Liga da Justiça, de como a montagem pode interferir não apenas no ritmo de um filme, mas na maneira como o público interpreta aquilo que está vendo. Quando o filme chegou aos cinemas, em 2016, sua versão tinha aproximadamente duas horas e meia de duração e foi imediatamente recebida por uma parcela da crítica como uma obra excessivamente complexa, sombria e, sobretudo, confusa. Muitas das decisões tomadas pelos personagens pareciam abruptas, determinadas relações entre acontecimentos não eram imediatamente evidentes e algumas informações fundamentais para compreender o que estava acontecendo simplesmente não estavam disponíveis para o espectador na mesma extensão em que haviam sido concebidas durante a produção.
Meses depois, a chamada Edição Definitiva acrescentaria aproximadamente trinta minutos ao filme. À primeira vista, poderia parecer apenas mais um daqueles casos em que um estúdio aproveita o lançamento doméstico para oferecer uma versão mais longa aos fãs. No entanto, a importância dessa edição está justamente no fato de que o material restaurado não funciona como um simples conjunto de cenas decorativas ou de momentos retirados apenas para reduzir a duração. Boa parte dessas cenas interfere diretamente na compreensão da narrativa, especialmente porque amplia a investigação de Clark Kent, desenvolve a conspiração envolvendo Lex Luthor, acrescenta contexto aos acontecimentos internacionais que cercam o início do conflito e recupera informações que ajudam a estabelecer relações de causa e efeito que, na versão cinematográfica, haviam ficado consideravelmente mais comprimidas.
A investigação de Clark é particularmente importante nesse sentido porque modifica a maneira como o espectador acompanha sua relação com Batman e com os acontecimentos que estão ocorrendo em Gotham. Na versão cinematográfica, determinadas conclusões de Clark podem parecer precipitadas justamente porque o processo que o levou até elas foi reduzido. A Edição Definitiva permite acompanhar com maior clareza sua tentativa de compreender quem é o vigilante de Gotham, o que está acontecendo ao seu redor e por que determinadas pessoas estão sendo envolvidas naquele conflito. O mesmo ocorre com a conspiração que envolve Lex Luthor e com os acontecimentos apresentados como parte de uma crise internacional: quando determinadas peças são retiradas, o espectador continua vendo os resultados, mas recebe menos informações sobre o caminho que levou até eles.
Essa diferença é fundamental porque existe uma distância considerável entre uma narrativa deliberadamente complexa e uma narrativa que teve partes de seu contexto retiradas. Batman vs. Superman nunca foi concebido como uma história simples ou linear. Snyder estava trabalhando simultaneamente com a introdução de uma nova versão de Batman, a continuação da trajetória de Superman, a construção da relação entre os dois personagens, a presença de Lex Luthor, a preparação de uma ameaça maior e a introdução de elementos que seriam desenvolvidos posteriormente no universo compartilhado da DC. A intenção nunca foi construir uma história na qual todas as informações fossem entregues imediatamente ao público. O problema é que, quando aproximadamente trinta minutos são retirados de uma obra que já trabalha com tantas camadas, a margem entre “complexidade” e “falta de informação” pode se tornar muito pequena.
É justamente por isso que a crítica de que Batman vs. Superman precisa ser analisada com alguma cautela. Um espectador pode assistir à Edição Definitiva e continuar considerando a narrativa excessivamente carregada, pouco fluida ou até mesmo mal construída. Isso é perfeitamente legítimo, porque nenhuma quantidade de cenas restauradas transforma automaticamente uma escolha narrativa controversa em uma escolha bem-sucedida. O que não pode ser ignorado, entretanto, é que algumas das informações utilizadas para sustentar a própria acusação de que determinados acontecimentos não faziam sentido foram reduzidas ou retiradas da versão cinematográfica.

Existe uma diferença importante entre dizer “eu entendi o que o filme queria explicar, mas considero a explicação ruim” e dizer “o filme não explica por que isso está acontecendo”. A primeira afirmação é uma crítica de interpretação e de construção narrativa; a segunda pode ser uma crítica factual à quantidade de informação oferecida pela montagem. Quando uma versão posterior restaura justamente parte desse contexto, a segunda afirmação deixa de ser tão simples quanto parecia no momento do lançamento.
Isso também ajuda a compreender por que a Edição Definitiva ganhou uma importância tão grande entre os espectadores que reavaliaram Batman vs. Superman posteriormente. Ela não transforma o filme em outra obra no mesmo sentido em que Liga da Justiça de Zack Snyder posteriormente faria com Liga da Justiça. A estrutura fundamental continua sendo a mesma, os acontecimentos centrais continuam ocorrendo e os personagens continuam chegando aos mesmos conflitos e decisões fundamentais. Não estamos diante de dois filmes completamente diferentes. Estamos diante de duas montagens diferentes de uma mesma obra, nas quais a quantidade de informação disponível para o espectador altera significativamente a experiência de acompanhá-la.
E essa distinção é justamente o que torna Batman vs. Superman tão importante dentro desta análise editorial. Se alguém simplesmente afirma que Snyder “não sabe contar histórias” porque considerou a versão cinematográfica confusa, está julgando uma montagem específica e transformando sua experiência com aquela montagem em uma conclusão definitiva sobre a capacidade narrativa do diretor. A existência da Edição Definitiva não obriga essa pessoa a mudar de opinião sobre o filme, mas deveria, no mínimo, fazê-la reconhecer que aquilo que ela recebeu nos cinemas não continha tudo aquilo que havia sido filmado e posteriormente considerado importante o suficiente para ser restaurado.
Há ainda uma ironia particularmente interessante nessa história. Batman vs. Superman foi criticado justamente por tentar fazer demais: apresentar Batman, continuar a história de Superman, estabelecer o conflito entre os dois, introduzir a Mulher-Maravilha, preparar a Liga da Justiça e construir uma ameaça maior para o futuro daquele universo. Ao mesmo tempo, quando parte do material que ajudava a sustentar essa quantidade de informação foi retirada, a crítica passou a apontar justamente a ausência de desenvolvimento e de explicações. Em outras palavras, o filme foi acusado de ser excessivamente ambicioso e, simultaneamente, de não fornecer contexto suficiente para aquilo que estava tentando construir.
Isso não significa que todas as decisões de Snyder estejam acima de qualquer questionamento. Significa apenas que a montagem precisa entrar na equação antes que se transforme uma percepção sobre a versão cinematográfica em uma sentença definitiva sobre o diretor. A Edição Definitiva não prova que Batman vs. Superman é perfeito, nem prova que toda crítica feita ao filme estava errada. Ela demonstra algo mais interessante: que aproximadamente trinta minutos podem representar muito mais do que trinta minutos de duração quando aquilo que foi retirado contém informações responsáveis por conectar personagens, acontecimentos e motivações.
E aqui a discussão começa a se aproximar de um ponto ainda maior. Se uma diferença de aproximadamente trinta minutos já é capaz de modificar a percepção sobre a clareza de uma narrativa, o que acontece quando a diferença deixa de ser de trinta minutos e passa a representar praticamente duas horas de filme, além de alterações estruturais, refilmagens, novos personagens, novos arcos e uma concepção completamente diferente da história? É nesse momento que Batman vs. Superman deixa de ser apenas um exemplo de edição e passa a funcionar como uma espécie de preparação para o caso que transformaria definitivamente a relação entre Zack Snyder, seus filmes e a própria ideia de “corte do diretor”.
E esse caso seria Liga da Justiça.
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