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Zack Snyder

É indiscutivelmente um dos diretores e produtores mais influentes, admirados e polarizados de sua geração.

O diretor, roteirista e produtor norte-americano, é conhecido pelo seus trabalhos nos filmes Liga da Justiça, Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, Watchmen, Madrugada dos Mortos, Army of the Dead, Rebel Moon e Sucker Punch. [...] Ainda pequeno, foi diagnosticado com Dislexia, [...], o que não o impediu de desenvolver suas próprias habilidades. Muito pelo contrário, o modo pelo qual venceu a dislexia, refletiu sua genialidade em todas as suas obras.
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Cortes do Diretor: entre a visão de Zack Snyder e a versão que chegou ao público
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Cortes do Diretor: entre a visão de Zack Snyder e a versão que chegou ao público

  • 01.09.2026
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Liga da Justiça e a transformação do problema

Antes de entrar propriamente nas mudanças que Liga da Justiça sofreu, vale enfatizar o processo de criação para compreender como o projeto foi evoluindo: nem tudo aquilo que posteriormente se tornou associado aos planos de Snyder fazia parte da versão definitiva que ele pretendia filmar. Um exemplo particularmente conhecido é a ideia de um breve relacionamento entre Bruce Wayne e Lois Lane após a morte de Superman. Snyder confirmou que essa possibilidade existia em uma versão inicial do roteiro, mas a ideia foi abandonada à medida que o projeto evoluiu. Isso é importante porque impede uma leitura simplista dos materiais de produção que vieram a público posteriormente: os storyboards e versões preliminares revelam possibilidades que fizeram parte do desenvolvimento do projeto, mas não necessariamente correspondem àquilo que Snyder ainda pretendia realizar quando o roteiro e a produção avançaram. Ao mesmo tempo, esses materiais são fundamentais para compreender como seus planos foram se transformando e quais caminhos narrativos chegaram a ser considerados para a continuidade daquele universo. É por meio deles, por exemplo, que podemos reconstruir elementos dos planos para uma sequência de Liga da Justiça.

Assim, a história de Liga da Justiça é conhecida, mas sua importância dentro dessa discussão merece ser reexaminada com muito mais cuidado, porque foi justamente nesse filme que a questão da montagem deixou de envolver apenas minutos adicionais ou cenas retiradas e passou a envolver a própria identidade da obra. Depois de Batman vs. Superman, Zack Snyder começou a desenvolver Liga da Justiça como parte de um plano muito maior para o universo cinematográfico da DC. O filme não era pensado como uma história isolada, mas como uma etapa de uma narrativa planejada para se estender por cinco filmes. Liga da Justiça ocupava uma posição central nesse arco: precisava reunir os heróis apresentados anteriormente, aprofundar personagens que ainda estavam sendo estabelecidos e, ao mesmo tempo, preparar acontecimentos que seriam desenvolvidos posteriormente. Essa posição dentro de uma história maior é fundamental para compreender por que as mudanças realizadas posteriormente tiveram consequências tão profundas. Não se tratava simplesmente de retirar algumas cenas de uma aventura independente, mas de alterar um capítulo que havia sido concebido para estabelecer personagens, conflitos e acontecimentos que continuariam nos filmes seguintes.

Mas, antes de analisarmos isto, precisamos contextualizar algo importante: a transformação de Liga da Justiça não começou quando Zack Snyder deixou a produção. Ela começou antes, como consequência direta da recepção de O Homem de Aço e Batman vs. Superman e da maneira como a Warner Bros. passou a enxergar o futuro daquele universo. Sem assumir sua parcela de culpa nas exigências em O Homem de Aço e nas interferências na montagem de Batman vs. Superman, a Warner Bros. estava preocupada com a crescente reação negativa de parte da crítica e do público aos dois filmes anteriores, e passou a buscar mudanças na abordagem de Liga da Justiça, especialmente em relação ao tom. Entre as exigências estava a ideia de incorporar mais humor ao filme. Snyder não considerava que simplesmente acrescentar humor fosse compatível com o universo que vinha construindo, mas, junto de Chris Terrio, adaptou o roteiro para atender às exigências do estúdio. O próprio Snyder explicou posteriormente que ele e Terrio não eram exatamente os melhores escritores para esse tipo de humor, e foi nesse contexto que Geoff Johns trouxe Joss Whedon para contribuir com reescritas.

A participação de Whedon, naquele momento, ainda não significava que ele assumiria a direção do filme. Snyder chegou a conversar com ele sobre possíveis cenas e considerava que Whedon poderia escrever algumas delas, aproveitando justamente sua experiência com humor e sua maneira diferente de trabalhar os personagens. Aos poucos, porém, sua participação no projeto começou a ganhar uma dimensão maior. Essa mudança acontecia enquanto Snyder ainda estava à frente da produção, e é importante preservar essa sequência porque ela demonstra que a transformação de Liga da Justiça não começou somente depois de sua saída: o projeto já vinha sendo conduzido sob novas expectativas impostas pelo estúdio e incorporando outras vozes criativas.

Joss Whedon assume Liga da Justiça

Liga da Justiça (2017): Liga da Justiça e a transformação do problema
Liga da Justiça (2017): Liga da Justiça e a transformação do problema

A situação mudaria definitivamente após a morte de sua filha, Autumn. Snyder decidiu se afastar da produção para permanecer com sua família e lidar com a perda, e foi nesse momento que Whedon passou de colaborador a responsável pela conclusão do filme. A partir daí, sua participação deixou de se limitar às reescritas e passou a envolver novas filmagens e uma nova montagem, conduzindo Liga da Justiça para uma direção significativamente diferente daquela que Snyder vinha desenvolvendo. Assim, a versão lançada em 2017 não surgiu simplesmente porque Snyder abandonou um filme pronto e Whedon o terminou: ela foi o resultado final de um processo de transformação que havia começado antes, quando a Warner passou a exigir que Liga da Justiça respondesse à recepção dos filmes anteriores e buscou alterar sua abordagem.

O que aconteceu a partir daí, entretanto, ultrapassou em muito a simples tarefa de finalizar uma produção que já estava praticamente pronta e mudar o tom. Whedon recebeu a responsabilidade de realizar novas filmagens, alterar diálogos, modificar cenas, acrescentar material e trabalhar em uma nova montagem, resultando em uma versão que não apenas retirava determinadas sequências concebidas por Snyder, mas também reorientava a estrutura e a própria narrativa do filme.

E há um detalhe que fortalece bastante essa análise: Chris Terrio também não participou simplesmente dessa transição como se tivesse concordado com a nova direção. Posteriormente, ele declarou que tentou retirar seu nome da versão de 2017 porque considerava que o filme não representava seu trabalho e que “Liga da Justiça de 2017 foi um ato de vandalismo“. Isso é particularmente relevante porque Terrio havia trabalhado diretamente com Snyder na construção do roteiro e nas mudanças realizadas durante o desenvolvimento do projeto. Seu afastamento em relação ao resultado lançado reforça que a transformação de Liga da Justiça não pode ser compreendida apenas como uma escolha editorial ou como uma simples adaptação do filme às exigências do estúdio. Havia uma diferença significativa entre o projeto que vinha sendo desenvolvido por Snyder e Terrio e aquilo que finalmente chegou aos cinemas.

Por isso, é importante não reduzir essa história à ideia de que “Whedon cortou algumas cenas de Snyder”. A diferença entre as duas versões é muito maior do que isso. A Liga da Justiça lançada nos cinemas em 2017 possui aproximadamente duas horas, enquanto Liga da Justiça de Zack Snyder, lançado em 2021, aproxima-se das quatro horas. A diferença de duração é impressionante, mas ainda não é o aspecto mais importante. O que realmente importa é o que existe dentro dessas horas e o que foi feito com esse material.

A visão de Zack Snyder para Liga da Justiça

Liga da Justiça de Zack Snyder: Liga da Justiça e a transformação do problema
Liga da Justiça de Zack Snyder: Liga da Justiça e a transformação do problema

A versão de Snyder devolve ao filme uma trajetória muito mais extensa para Victor Stone, transformando Cyborg de um personagem que tinha participação reduzida em uma das figuras centrais da narrativa. Sua relação com o pai, Silas Stone, sua transformação, seus conflitos internos e a maneira como sua história se conecta diretamente à Caixa Materna recebem espaço suficiente para que ele possua um arco dramático próprio. O mesmo acontece com Barry Allen, cujo desenvolvimento é consideravelmente ampliado. Sua relação com o pai, sua insegurança, sua dificuldade em compreender plenamente aquilo que é capaz de fazer e sua trajetória até o momento em que precisa utilizar seus poderes de maneira decisiva passam a fazer parte da estrutura emocional do filme, em vez de funcionarem apenas como elementos destinados a apresentar um novo herói ao público.

Ela também recupera elementos fundamentais da mitologia dos Novos Deuses. Darkseid, ausente da versão cinematográfica de 2017, retorna como uma presença central para aquilo que estava sendo planejado para aquele universo, enquanto DeSaad também é apresentado e a história de Lobo da Estepe é modificada de maneira significativa, incluindo sua motivação, seu passado e sua relação com Darkseid. Bruce Wayne também passa por uma construção diferente. Sua trajetória está mais diretamente ligada ao sentimento de culpa provocado pela morte de Superman e à necessidade de reunir os outros heróis para enfrentar uma ameaça que ele acredita não conseguir enfrentar sozinho. A morte de Superman, por sua vez, deixa de ser apenas um acontecimento anterior à história e passa a funcionar como parte importante do estado emocional dos personagens, enquanto o retorno de Superman recebe outra construção e outro peso dentro da narrativa. Até mesmo a relação entre Lois Lane e Clark Kent ganha um tratamento diferente. A diferença, portanto, não está apenas na quantidade de material, mas na forma como esse material reorganiza personagens, motivações, arcos e relações dentro da história.

E existe ainda algo maior: a versão de Snyder não apenas conta a história da formação da Liga; ela estabelece explicitamente um futuro para aquele universo. O epílogo envolvendo Bruce Wayne, o Coringa, o Exterminador, Lois Lane e a possível realidade futura apresenta elementos que apontavam diretamente para aquilo que poderia acontecer posteriormente. A chamada visão de futuro não funcionava simplesmente como uma sequência colocada ali para criar um momento visualmente impactante. Ela fazia parte da concepção de Snyder para a continuidade daquele universo e estava relacionada ao arco maior que havia sido planejado para a Liga da Justiça. Isso é especialmente importante porque o filme não foi concebido como o encerramento daquela história. Liga da Justiça era um capítulo intermediário de uma narrativa que deveria continuar, e essa continuidade nunca chegou ao público da maneira originalmente planejada.

O universo de 5 arcos interrompido

Curiosamente, em Liga da Justiça de Zack Snyder, o fenômeno da crítica negativa massiva, muitas vezes atravessada pelas lentes viciadas de uma percepção prévia sobre quem Zack Snyder supostamente seria — fascista, autoritário, misógino ou simplesmente incapaz de construir uma narrativa coerente — não venceu a campanha e o boca a boca do público. Dessa vez, a obra chegou acompanhada de uma expectativa construída não apenas pela crítica, mas por anos de reivindicação dos próprios espectadores, que tiveram a oportunidade de assistir ao filme sem que a versão de 2017 fosse a única referência disponível para julgá-lo. A recepção não foi unânime, evidentemente, mas o fenômeno demonstrou que a narrativa previamente estabelecida sobre um diretor não é necessariamente suficiente para determinar como uma obra será recebida quando o público finalmente tem acesso a ela em condições diferentes. Ainda assim, não findava o Universo pretendido de Snyder.

O público recebeu O Homem de Aço, Batman vs. Superman e, posteriormente, Liga da Justiça de 2017, mas o arco de cinco filmes concebido por Snyder não foi concluído. Portanto, mesmo depois do lançamento de Liga da Justiça de Zack Snyder, existe uma dimensão de incompletude que não pode ser ignorada. O Snyder Cut resolveu uma parte fundamental do problema: finalmente permitiu que o público conhecesse a versão de Liga da Justiça que Snyder havia desenvolvido. Mas recuperar essa versão não significou recuperar aquilo que deveria vir depois dela. O público conheceu apenas o terceiro capítulo de uma história que não chegou ao quinto. Isso também interfere na maneira como a obra é recebida, porque um filme que funciona como parte de um arco maior pode ser avaliado de maneira diferente quando sabemos que seus capítulos seguintes nunca serão produzidos. Elementos apresentados como preparação, sementes narrativas ou construção de futuro passam a ser percebidos também como pontas soltas, não necessariamente porque tenham sido mal construídos, mas porque aquilo que deveria desenvolver e concluir essas ideias deixou de existir.

A própria existência da versão de 2021 tornou impossível sustentar que o filme de 2017 era simplesmente “o filme de Snyder com algumas cenas cortadas”. Não era. Era uma obra profundamente modificada. A comparação entre as duas versões tornou concreta uma diferença que, até então, poderia ser tratada apenas como discussão ou especulação: personagens haviam perdido arcos inteiros, elementos mitológicos haviam sido retirados, o tom havia sido modificado e a perspectiva de futuro daquele universo praticamente desapareceu da versão cinematográfica. Durante anos, críticos e espectadores utilizaram Liga da Justiça de 2017 como parte da avaliação da carreira de Snyder, embora aquela versão tivesse sido concluída sob outro diretor e depois de mudanças substanciais. Quando Liga da Justiça de Zack Snyder finalmente foi lançado em 2021, a discussão deixou de ser puramente hipotética. Pela primeira vez, o público pôde colocar as duas versões lado a lado e observar concretamente o quanto uma produção pode mudar entre aquilo que um diretor desenvolveu e aquilo que finalmente chega aos cinemas.

Independentemente de qual versão alguém prefira, portanto, uma coisa se tornou incontestável: as duas versões não contam exatamente o mesmo filme da mesma maneira. A recuperação da obra não significou a recuperação integral do projeto. O arco de cinco filmes permaneceu incompleto. O público finalmente recebeu o filme que Snyder queria apresentar, mas não recebeu as continuações que deveriam desenvolver as consequências daquela história, aprofundar seus personagens e conduzir aquele universo até o desfecho planejado. A história de Liga da Justiça, portanto, não termina simplesmente com “Snyder finalmente teve seu corte”. Ela termina com uma situação mais paradoxal: o público finalmente recebeu o filme que Snyder queria apresentar, mas não recebeu a continuação da história que esse filme preparava.

Essa é talvez a maior contribuição do fenômeno Snyder Cut para a discussão cinematográfica. Ele tornou visível algo que normalmente permanece escondido: o público raramente sabe quanto de um filme foi alterado entre aquilo que o diretor imaginou, aquilo que foi filmado e aquilo que finalmente chega às telas. E, no caso de Liga da Justiça, essa diferença deixou de ser uma questão de preferência editorial.

Já em Army of the Dead, a história se repete com ressalvas.

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Raquel

Professora, palpiteira, resenhista, revisora, editora-chefe, back-end, crítica dos haters, Staff do SnyderCutBR e aspirante a Engenheira de Software. Uma entre os mais de 10 mil loucos, insanos, crentes, cultistas, snydetes, stans, fãs, apoiadores, bots, snyder bros, seguidores de Zack Snyder, de suas obras e do nosso Portal.

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