Zack Snyder conta como filmou "The Last Photograph" na Colômbia sem estúdio, sem tela verde e com febre, longe do estilo que marcou sua carreira.
Zack Snyder estava sentado no banco de trás de uma van apertada e surrada, encharcado de suor. O suor escorria pelo seu rosto. Suas costas estavam completamente molhadas, e ele quase desmaiou.
O calor da selva, que passava dos 40 graus, poderia explicar o mal-estar. Afinal, ele estava no extremo sul da Colômbia. Porém, a causa também poderia ser a febre alta que ele ainda não sabia que tinha (mais tarde, descobriria que havia contraído COVID-19). Ainda assim, ele carregava uma câmera no ombro e sabia de uma coisa: não podia parar de filmar as cenas daquele dia. Snyder finalmente realizava seu projeto pessoal, The Last Photograph, e acumulava as funções de diretor e cinegrafista. O filme estava, literal e figurativamente, sobre os seus ombros.
Quando ele voltou a Letícia, cidade mais ao sul da Colômbia às margens do rio Amazonas, uma mulher ofereceu balas para tosse a um Snyder trêmulo. “Halls é a resposta?!”, ele pensou. “Tudo bem, foda-se.”
Ao ser questionado se chegou a usar máscara, Snyder ri.
“Não existe máscara na Amazônia. Simplesmente não tem. Isso é hilário”, afirma.
Quase um ano se passou desde aquele episódio. Agora, Snyder está sentado em seu escritório moderno e elegante, erguido nas colinas de Pasadena, e se prepara para viajar ao Festival Internacional de Cinema de Toronto, onde The Last Photograph estreia neste domingo. A trilha sonora de Escape from New York toca em uma vitrola, dando o tom a um dia que, surpreendentemente, fica chuvoso.
A jornada até a realização do filme durou 20 anos. Nesse período, Snyder passou de diretor de comerciais e videoclipes a diretor de grandes estúdios de Hollywood. Em seguida, ele assumiu alguns dos filmes mais caros e mais escrutinados do século: os filmes da DC feitos pela Warner Bros. na década de 2010. Sua trajetória ainda reservava mais reviravoltas: ele enfrentou uma tragédia pessoal, perdeu o controle criativo de Liga da Justiça e viveu a saga conhecida como #SnyderCut. Depois, ele retornou com uma dupla, ou talvez um trio, dependendo de como se conta, de filmes pela Netflix: Army of the Dead e as duas partes de Rebel Moon.
The Last Photograph: uma nova jornada
Contudo, The Last Photograph mostra Snyder trabalhando de um jeito inédito: como cineasta independente. Nenhum estúdio ou serviço de streaming apoia o projeto. A escala é pequena, e o orçamento é menor do que o de alguns comerciais que ele dirigiu no início da carreira.
“Esse filme não tem agenda nenhuma. Quando você faz um filme de grande estúdio, existem muitas coisas para considerar sobre o produto que está criando. Porque aquilo realmente é um produto, muito mais do que um poema tonal, sabe o que eu digo? As apostas são menores, certo? Você não está tentando vender algo para o público. Você só está entregando uma experiência, e essa experiência não precisa terminar em uma continuação. Eu não estou tentando levar o espectador a assistir outro filme ou comprar um brinquedo. O motivo por trás deste filme é completamente diferente.”
Sobre o processo de criação de The Last Photograph, Snyder diz que a experiência “foi realmente única e íntima, e isso foi catártico para mim. Fazer um filme que fosse verdadeiro apenas a si mesmo, sem dever nada além dos momentos que estávamos tentando criar.”
A história se passa em um país sul-americano sem nome e acompanha um fotógrafo de guerra viciado em heroína. Ele é a única testemunha sobrevivente de um massacre que matou um diplomata e sua esposa. Quando o irmão do diplomata aparece, os dois homens embarcam em uma jornada que os leva cada vez mais para longe da cidade e da civilização, em busca dos filhos sequestrados da família. Em alguns momentos, a trama evoca os Cavaleiros da Távola Redonda em busca do Santo Graal, já que a dupla também procura sua própria redenção.
The Last Photograph nasceu como um thriller de espionagem ou de guerra, mas sempre girou em torno de dois protagonistas. Em determinado momento, o projeto teve estrelas como Sean Penn e Christian Bale ligadas ao elenco, quando ainda estava na Warner Bros., antiga casa de produção de Snyder. Depois do suicídio de sua filha Autumn, em 2017, porém, e nos anos seguintes à sua saída do estúdio, Snyder passou a abordar o material de outra forma.
“Sim, a estrutura é bem parecida, e os eventos também são semelhantes, mas o filme se tornou uma meditação sobre morte e redenção. E, para mim, também é sobre como as pessoas enxergam o mundo de formas diferentes.”
Snyder recuperou os direitos de The Last Photograph junto à Warner (o estúdio liberou o projeto, depois de perceber que ele não o levaria a um concorrente). Livre das amarras de um estúdio e com orçamento limitado, ele reuniu uma equipe pequena. Além disso, ele contou com parceiros de longa data, como a esposa e produtora Deborah Snyder e o executivo Wesley Coller, e também com o produtor italiano Gianni Nunnari, com quem trabalhou na adaptação de 300, de Frank Miller, em 2007. Para os papéis principais, Snyder escalou o ator escocês Stuart Martin e o ator irlandês Fra Fee, ambos também presentes em Rebel Moon.
Nova abordagem cinematográfica
Em The Last Photograph, nenhuma das marcas registradas de Snyder aparece: não há câmera lenta nem tela verde. Existe, porém, uma operação-comando em que um helicóptero explode. O filme tem fotografia belíssima e composição refinada, já que Snyder decidiu assumir também a direção de fotografia, função que ele exercia no início da carreira, quando dirigia comerciais, e à qual retornou em Army of the Dead.
“Os orçamentos foram ficando maiores, os filmes foram ficando maiores, e ele foi se afastando cada vez mais da câmera”, conta Deborah Snyder, que produz os projetos do marido desde que trabalharam juntos em um comercial da Reebok, nos anos 1990. Com Snyder atrás das câmeras novamente, as filmagens ganharam um clima de intimidade.
“Isso quase remete às raízes dele em comerciais e videoclipes. Você tem uma equipe menor, mas as imagens continuam impressionantes. Ele sabe criar imagens bonitas, mas você não precisa de todos os equipamentos e de todo o pessoal. Você consegue se mover mais rápido e filmar mais. E eu sinto que essa é a evolução dele como cineasta. Quando os filmes ficam grandes demais, você acha que tem mais liberdade criativa, mas na verdade tem menos, porque não consegue se mover com agilidade.”
E Snyder se moveu com agilidade. As filmagens duraram 32 dias, “a metade do tempo do filme mais curto que eu já fiz”, ele conta. A equipe montava, em média, 40 planos por dia.
“No primeiro dia de filmagem, eu fiz 72 configurações reais de câmera”, ele diz, animado. “Isso é uma loucura. Em ‘Liga da Justiça’, teve dia em que eu fazia só quatro configurações.”
Assim, a maior parte do filme foi rodada com câmera na mão, com exceção de um ou dois planos de dolly. Esqueça qualquer plano com guindaste ou qualquer vídeo village. Snyder relembra: “Não tinha trailer, não tinha cadeira, não tinha nada. Era só eu, a câmera e, literalmente, um punhado de pessoas.” Havia apoio de alimentação no set, e o hotel onde todos ficavam hospedados servia larvas de besouro vivas uma vez por semana, no café da manhã.
Nova filosofia: Ser bom o suficiente para dar uma chance à sorte.
Durante a conversa, Snyder fica animado, se levanta e descreve como captou um plano no rio contra o pôr do sol. Ele reencena a filmagem da operação comando e detalha o processo de usar armas a gás. Ele também comenta como The Little Green Golf Book, de Harvey Penick, também se aplica a cineastas, especialmente o trecho sobre precisar ser bom o suficiente para dar uma chance à sorte. Sorte e talento, portanto, estiveram presentes durante as filmagens de The Last Photograph, inclusive quando ele enfrentou a febre alta.
“Eu realmente vejo em Zack um general”, diz Nunnari, que se lembra de Snyder trabalhando em um set gelado e doente, em Montreal, durante as filmagens de 300. “Ele sabe que precisa criar algo, e ele faz.”
Depois da estreia de The Last Photograph, Snyder já coloca em movimento seu retorno aos filmes de franquia. No momento, ele avalia como conduzir um remake do clássico de John Carpenter, Escape from New York. (Não à toa, o disco da trilha sonora do filme estava por ali.) O original, lançado em 1981, se passava em um futuro distópico ambientado em 1997. A versão de Snyder também será ambientada em 1997, funcionando como uma espécie de filme de época futurista. O original capturou a imaginação de Snyder ainda aos 13 anos e nunca mais o deixou.
“O filme define e ao mesmo tempo desafia o gênero, porque ninguém realmente conseguiu reproduzir a ousadia que ele tem”, ele observa.
Recentemente, Snyder voltou à Warner Bros. para uma sessão especial de Excalibur, de John Boorman, um de seus filmes favoritos. A exibição fez parte de uma série privada de sessões no estúdio, conduzida pelos executivos Pam Abdy e Michael De Luca. Ele ficou animado com o retorno: “Eu sou fã do clima daquele estúdio”, ele diz. E até se submeteu a uma sessão de perguntas e respostas de uma hora.
“Teve pergunta difícil também, tipo ‘Que adversidade você enfrentou na carreira?'” Snyder pensou na ironia de ouvir essa pergunta justamente no estúdio onde perdeu seu universo de super-heróis. “Eu pensei: ‘Essa é uma pergunta estranha de fazer nesta sala, mas tudo bem.'”
E o DCU?
Uma coisa, porém, ele ainda não retomou por completo: assistir aos filmes da DC. Ele ainda não viu, por exemplo, Superman, de James Gunn.
“Eu simplesmente ainda não tive tempo”, ele diz, soltando uma pequena risada. Em seguida, ele reforça que apoia Gunn e torce pelo sucesso da divisão da DC.
Assim como The Last Photograph, mostra Snyder em seu momento mais reflexivo, suas opiniões sobre o legado na DC e sobre a popularidade dos filmes da Marvel seguem o mesmo tom. Batman, Superman e Mulher-Maravilha estão entre os super-heróis mais populares e reconhecidos do mundo, atrás apenas do Homem-Aranha. Teoricamente, isso deveria facilitar a venda desses personagens ao público.
Na visão de Snyder, a Marvel decifrou o código de como tornar seus personagens comercialmente atraentes. Ele, por outro lado, sempre se interessou pelo que considerava a essência interior e icônica desses heróis.
“[A Marvel] é como um brinquedo de parque de diversões, sabe? As subidas, as de,scidas, aquela parte de cruzeiro e depois mais uma descida. No final, você pensa: ‘Uau, isso foi uma loucura, isso foi incrível.’ Eu nunca tive interesse nisso. E, sabe, talvez isso tenha sido um erro. Mas eu não penso assim. Eu não consigo fazer isso. Prefiro falar sobre a mitologia desses personagens. E talvez isso não seja tão divertido”, ele reflete.
Depois, ele ri.
Via THR
Portal Zack Snyder • BR: De fã para fã
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